Publicado por: Malhado | 24-09-2010

A mágoa da Druidesa e o Bardo

Primeiro o corvo veio me contar sobre um crime cometido por pessoas que mentiram sobre fazer parte da minha teia para atacá-la furtivamente na forma da depredação de um templo. Logo em seguida senti a terra sob meus pés tremer e as árvores à volta do meu bosque começaram a dançar. Um suave sussurro começou a ecoar pelo meu bosque, aonde fiquei por alguns anos conferenciando com meus Deuses enquanto observei em silêncio o mundo e minha comunidade.

Nuvens de chuva se formaram em meio à noite, encobrindo a Deusa Lua, e fortes relâmpagos ecoaram ao longe. E entendi que Taranis precisava falar comigo, e armei-me para qualquer possível batalha. Peguei meu cajado e minha espada, sacudi meu manto vermelho e toquei o tronco da Bétula pedindo sua bênção para me retirar por algum tempo. Senti a terra estremecer novamente enquanto gotas suaves caíam das folhas, e a chuva tornou meu manto pesado de água de uma forma reconfortante que apenas que se isolam no bosque e o tem por casa saberia entender.

Caminhei por um tempo e pedi ao Velho Carvalho que me deixasse subir em seus galhos e falar com o céu. Escalei, e lá em cima nuvens de chuva fina traziam a garoa, e não a tempestade que os raios prenunciaram. Pensei que se Ele precisou de raios para me chamar, Sua urgência deveria ser muita, mas Ele nada disse quando o vi. Mostrou-me apenas que de uma clareira um pouco a frente um filete de fumaça denunciava visitas.

O chão tremeu pela terceira vez enquanto eu caminhava até lá, e o cervo me disse que Cernunos me pedia pressa. Tornei-me o falcão e segui apressado até encontrar aquela Mulher-Druida tão amiga, e que agora trazia nas mãos um galho de salgueiro onde gravava sua dor numa prece pelos Deuses de nossos vizinhos mas, principalmente, pelos povos que sob os auspícios de um deus amigo que teve sua casa profanada confraternizaram. Reconheci a dor em minha irmã e novamente tornei-me o Bardo antes de me aproximar. Foi quando o solo acalmou.

Ela me falou da necessidade de erguermos as vozes e de estendermos os braços para acolher quem precise das nossas palavras, e eu relutei em voltar ao mundo dos homens enquanto o céu enegrecia e a lua da Lua desaparecia moldando nossas formas em sombras, até que por fim um relâmpago atravessou um Carvalho ao meu lado e as farpas cravaram no meu manto, enegrecidas pelo fogo e brilhando de energia.

Olhamo-nos tranquilamente, ela sabendo que eu não recusaria a voz dos Deuses, e ao seu lado caminhei. Recolhi algumas das farpas e dei uma a ela usar como um amuleto de proteção em sua jornada de volta, e ao chegarmos a esse mundo seguimos caminhos diferentes, ela para sua tribo e eu para conversar com alguns amigos antes de reencontrá-la.

Chegando eu encontrei a podridão e senti o cheiro acre do egoísmo da humanidade que eu sabia que iria reencontrar, mas nada disso me espantou. Ouvi os clamores de guerra ao longe mais uma vez enquanto sentei-me para escutar o lobo-guará contar-me as novidades. Nesse meio tempo o ipê protegia-me do calor e decorava meu manto com suas flores. Foi quando a coruja-buraqueira trouxe-me outras novidades, e não sobre guerra, mas sobre a união em defesa daquela Mulher-Druida que sempre me visitava e agora me trouxera para este mundo a fim de eu a assumir a tarefa que eu tanto relutara em realizar. Graças a ataques vis e manobras pérfidas, arremedos risíveis típicos dos seres vazios que bem conheço pela cor das almas e o cheiro azedo de esterco que emana das suas obras, pessoas começaram a erguer suas vozes indignadas, e mesmo alguns dos mais silenciosos trouxeram suas palavras a público em defesa daquela que veste o branco sagrado.

Fui até ela e a encontrei protegida, cercada de pessoas que a apoiavam. Antes de me aproximar, dei a volta até chegar bem perto dos bufos de ódio e inveja dos que tentavam esconder-se para espiar. Escutei seus delírios de tornarem-se o Carvalho enquanto não percebiam ser apenas o adubo, pois suas almas estão em decomposição. Logo atrás deles, a três passos de distância, eu ouvia seu murmúrio de ira e incompreensão, bem como a comemoração pelos atos infantis que julgavam tão poderosos. Sorri ao ver aquelas crianças errantes, marionetes que são de forças que não fazem ideia do que realmente sejam, forças essas também apenas marionetes que os Deuses usam para cutucar quem realmente precise ser acordado quando é tempo, da mesma forma que fazemos ao provocar com gravetos as fogueiras de Belenos. Entediei-me deles e desci para perto da assembleia. Lembrei ainda estar pronto para a guerra e sorri de novo ao imaginar o “oponente”…

As palavras que a coruja me contou voltaram à minha mente, e olhei os corações daquelas pessoas enquanto troquei palavras com algumas outras. Quase todas estavam extremamente focadas em enxergar e analisar os atos, acendendo gravetos e moldando fogueiras á sua volta com as emoções, algumas serenas e outras bastante fortes, que delas brotavam. Notei o sussurro dos Deuses chegando àqueles corações e senti Ela ao meu lado. Peguei então na mão de Brigit a Seu lado abençoei as fogueiras que já se erguiam, consumindo o lixo deixado pelos que pretendiam ofender e os tornando em iscas para trazer Seu o calor e curar a indignação dos presentes.

A luz daquelas fogueiras abençoavam a todos e, no centro, a druidesa estava deitava no colo de Brigit, escutando Sua harpa e Seus cânticos enquanto era curada de sua mágoa. Senti aquela energia reunindo todos ali, e foi então que uma mão tocou meu ombro. Virei-me para encarar o olhar do Dagda, o Bom Deus, que me falou para contar a história do que eu vi e através dela fazer com que as pessoas saibam e se lembrem que do mais pérfido e do que tenta nos destruir muitas vezes surge a força para que o Carvalho se transforme de bolota em árvore secular, mas no fim a decisão é apenas nossa.

Após presenciar o que a indignação bem direcionada pode fazer, agradeci aos Deuses pelo presente e por me darem novamente a oportunidade de ser instrumento de Suas canções. Quanto àqueles que tentam nos atingir, eles apenas conseguem promover nossa união quando assim decidimos, e não devemos nem por um momento esquecer da teia que podemos formar quando somamos nossas vozes, pois este é o legado ao qual o frágil graveto se presta e que deve deixar: a fogueira sagrada em volta da qual nos reunimos!

Meus agradecimentos especiais a Bandruir por me trazer de volta para cantar as canções dos Deuses a quem as queira escutar.

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Responses

  1. E as vozes unidas farão o seu trabalho encantado, de proteção, união e defesa do que é correto e justo. E aqueles que profanam um espaço sagrado buscam em seu ato seu próprio destino…

  2. Deslumbrante!!! Encantador esse post!!

    Bjosss Tio


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