Publicado por: Malhado | 06-10-2010

Ciclos da história

“Os celtas nunca se uniram para criar um grande império.
Dividiam-se em muitas tribos, sempre em luta uma contra a outra.
Esta rivalidade entre as tribos foi a causa de sua derrota para os romanos”

Robin Place

Hoje em dia sabe-se que os celtas fizeram sua expansão assimilando os povos que viviam nas terras que ocuparam e mesclando sua cultura à deles, e alguns Deuses são inclusive vistos como possivelmente pertencentes a civilizações anteriores à sua chegada dos celtas à região onde eram cultuados em sua época. Sabe-se ainda que eram um povo guerreiro e extremamente eficaz em agricultura, e que os povos conquistados eram absorvidos pelo Druidismo, com seus costumes e leis.

Após essa colonização as tribos jamais formaram uma nação celta, e não existe um panteão celta unificado. As brigas entre elas eram constantes, e não-raro devido ao ego de líderes tribais suplantar a razão. De fato, há relatos de tribos celtas que se aliaram a Roma para derrubar tribos rivais, concentrando-se num pensamento imediatista de vitória e numa falsa promessa de aliança que somente acelerou – e quem sabe não tenha deixado de impedir – a conquista de seus territórios pela mesma Roma à qual serviram, abrindo caminho para a posterior desidentificação da sua cultura como um todo, uma vez que foram assimilados e tiveram alguns de seus conceitos absorvidos e reescritos, alterando de forma drástica o que sobrou da memória e do significado original de seus Deuses, suas histórias e seus costumes, segundo os interesses de seus conquistadores.

Atualmente o mesmo comportamento pode ser observado nas religiões que chamamos de pagãs. Vemos pessoas, muitas delas se considerando pagãs sem fazer ideia do significado histórico e filosófico do termo, que têm alguma projeção seja por fama, desenvoltura, visibilidade ou mesmo pela expressão de seu trabalho e conhecimento trocando ataques e acusações, usando para isso desde listas de Internet e sites de relacionamentos até mesmo seus grupos de estudo e prática religiosa. Vemos também pessoas sem o mínimo conhecimento ou gabarito tentando galgar degraus dentro de seus grupos ou do meio pagão por meio desse tipo de ataques.

Enquanto existe essa luta em todas as frentes, seja por justiça ou pela busca desenfreada de impingir a sua verdade ao máximo de pessoas possível, seja na tentativa de elevar o nível do material disponibilizado ao público ou na ferrenha batalha por manter cegos os que puderem controlar, essas diversas facções não enxergam que ninguém tem a ganhar com essa guerra a não ser as pessoas que vêm no Paganismo uma ameaça a seus objetivos e, mesmo, sua forma de encarar o mundo.

A situação atual de quem busca numa religião da terra uma alternativa religiosa é mais ou menos a seguinte: por um lado, existe uma massa de pessoas ansiosas por obter informação rápida e fácil, em geral sem ter que lidar com o “incômodo” da reflexão, do senso-crítico ou do compromisso com o que absorvem, e se possível passando bem longe da inglória tarefa de ter que observar a própria face num espelho que lhes mostrará tudo o que não desejam encarar. Por outro, existem pessoas que buscam uma real conexão com os Deuses, como quer que os concebam, e têm uma sincera vontade de buscar algo embasado para justamente trabalhar o reflexo no espelho do qual tantos fogem. Mas essas pessoas esbarram em autores de livros que escrevem de qualquer coisa menos o que dizem estar falando nas belas capas de seus livros lucrativos.

Desta forma, enquanto todos continuam se atacando, pseudo-pagãos tomam conta do “mercado” de auto-ajuda, vendendo a ideia de que uma determinada área, ou mesmo todo o Paganismo, é algo absurdamente diferente do que seja e usando esse discurso fácil para angariar “ovelhas” para seus rebanhos neo-qualquer-coisa que eles desejem criar, e quem busca alguma informação séria acaba sucumbindo ao golpe da mídia, que é extremamente eficaz em vender o meramente rentável como a mais absoluta verdade. Afinal, a religião é um negócio muito profícuo, e nos tempos atuais, onde vivemos guerras de egos dentro do cenário pagão brasileiro, existe um solo fértil pra quem queira se instaurar como a grande solução tanto para os que buscam informação de qualidade quanto para quem busca uma muleta para não ter que enxergar quem realmente é.

No passado os Celtas foram derrotados pois não souberam se unir ante um adversário comum que em alguns casos sequer conseguiram enxergar como inimigo, uma vez que muitas tribos aliaram-se a ele e sucumbiram em seguida. Desta forma, falharam em ver que o pior dos inimigos é o orgulho. Hoje em dia caminhamos na mesma direção, cegos e guerreando tanto entre nós mesmos quanto com os aproveitadores que enxergam a falta de unidade dentro do nosso meio. E se o ciclo se confirmar sem nos conscientizarmos da importância dessa cooperação entre pessoas que seguem religiosidades verdadeiramente voltadas para a terra e que realmente desejam fazer um trabalho sério, a “nova Roma” nos aguarda no horizonte.

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Responses

  1. Se realmente temos fé, não precisamos questioná-las !

  2. São nesses momentos, nestas reflexões, em que questionamos até onde vai nossa fé… se realmente nos dedicamos aos Deuses ou se preferimos usar a capa do Paganismo como uma modinha fashion…

    Nós, pagãos dedicados à nossa fé e aos nossos Deuses, devemos nos dedicar a fortalecer nossos laços.

    Beijos Malhado!!


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