Publicado por: Malhado | 05-01-2012

Convivência, Responsabilidade e Diversidade

Se, por um lado, a humanidade vivencia um redescobrimento de antigas práticas e conceitos espirituais e religiosos, por outro assistimos o endurecimento de atitudes e discursos que ela tem buscado superar. A intolerância religiosa é uma dessas mazelas, atingindo-nos tanto de fora para dentro como internamente, na forma de brigas por poder e glórias entre filhos do mesmo solo e muitas vezes dos mesmos Deuses. Além disso, volta e meia reaparece como “opção de retaliação” por momentos históricos mal estudados e mal compreendidos, mas geralmente utilizados como desculpa para tentar justificar expressões de revoltas e frustrações pessoais sob uma falsa bandeira de justiça.

Se não em todas, pelo menos na maioria das vertentes de pensamento pagãs a diversidade é hoje um conceito não apenas muito difundido, mas sagrado. Isso advém não apenas do respeito que os antigos tinham pelo solo e pelos recursos presentes na terra em que habitavam, mas especialmente da consciência que hoje tomamos dos nossos erros históricos, quando a nossa incapacidade em nos vermos como parte de um complexo sistema do qual deveríamos ser guardiães nos fez egoístas e passamos a nos denominar “senhores” do que jamais nos foi de direito. Desde então, guerras e outras tantas atrocidades acabaram por estabelecer no planeta um sistema onde a posse, e não o respeito à natureza e seus ciclos, predomina e é responsável por muito mais sofrimento e ruína do que qualquer vantagem por ele oferecida.

Da mesma forma, nosso maior adversário nos tempos atuais não está nas diferentes formas de entender e celebrar o que é divino, mas em nós mesmos e na nossa imensa capacidade de fugir da própria responsabilidade, jogando a “culpa” em qualquer pessoa, teoria ou evento nos quais possamos despejar o peso da preguiça ou incompetência que tentamos ignorar. É muito mais fácil e cômodo ignorar nossas falhas e nos apegarmos àquilo que acreditamos como verdade absoluta que esquecer nossos preconceitos olhar para o outro com a sincera compreensão de sua realidade cultural a fim de reconhecer seu direito de encarar a vida como lhe aprouver, desde que respeitando as leis vigentes, o bom senso e normas mínimas de interação social.

Mas como assim estabelecer “pré-requisitos” para “reconhecer” um direito tão fundamental quanto o da liberdade de credo, você deve estar se perguntando. Essa questão é tema de acalorados debates, mas o próprio conceito de diversidade nos leva à conclusão de que a liberdade religiosa de uma pessoa não pode interferir na liberdade de outra pessoa.

Isso nos leva ainda a pensar que as leis de um Estado também não de deveriam interferir na escolha espiritual de seus cidadãos. Isto, entretanto, é uma conquista social aquele povo deve lutar para conseguir, pois nenhuma liberdade é conquistada sem um movimento forte por parte dos oprimidos. Neste caso, nosso papel é apoiar ações para que a lei torne-se mais justa e democrática, mas precisamos estar cientes de que nossas batalhas devem ser travadas no campo do ativismo pacífico e da conscientização das pessoas a respeito dessa luta.

Atingir esse estágio inicial é um árduo exercício de amadurecimento espiritual, cidadania e respeito a essa diversidade sobre a qual muito se fala e pouco se entende. E tudo começa com uma palavra terrível: tolerância.

Você tolera o que te incomoda profundamente, o que odeia e o que despreza, e não o que você respeita ou abraça como uma outra forma de se chegar ao mesmo fim. Você tolera o que a lei te impede, quando impede, de tentar destruir. Você tolera o que vai contra sua imutável “verdade” e mesmo ameaça a tranquilidade do seu confortável cotidiano, como uma forma diferente de vestir, comportar-se, amar ou falar. Qualquer trivialidade, mesmo a menor e mais banal, pode servir de estopim para descarregar energias negativas represadas em nossas almas sobre outrem, enquanto nos protegemos sob a “desculpa” de “pelo menos tolerarmos” algo ou alguém, convenientemente esquecendo ou mesmo ignorando que o problema está, sempre, em quem tolera.

Por outro lado, para muitos que sofrem, sofreram ou simpatizam com as vítimas das injustiças que vivemos no passado e com tantas outras com as quais ainda lidamos, o ato de tolerar é um importante e geralmente doloroso primeiro passo rumo a curar-se desse ciclo de incompreensão e ódio. E tudo começa por uma mudança de atitude acompanhada de uma profunda reflexão e um trabalho que diminua a própria reatividade, substituindo a ira e a impulsividade pela ponderação e pela paciência.

Por exemplo, ao exigir o respeito ao nosso modo de vida é necessário estarmos atentos ao quanto respeitamos o modo de vida alheio. O ideal é que ambas as partes estejam abertas ao diálogo, pois o medo do desconhecido é uma das principais causas do preconceito e apenas a informação cura a ignorância, mas mesmo para chegar nessa fase é necessária muita paciência e boa vontade. Uma vez que consigamos estabelecer o diálogo, essa troca fará barreiras e mágoas serem diluídos e daí poderá nascer o respeito e, não raro, uma admiração mútua.

Para quem já conseguiu acalmar a própria revolta e busca realmente vivenciar um caminho espiritual ligado à terra, limitar-se a apenas tolerar torna-se algo intolerável. É necessário dar um próximo passo e aprender a conviver, pois somos todos parte daquele sistema complexo, formado pela diversidade interdependente de seres e materiais que compõem nosso já fragilizado planeta o qual estamos levando não à destruição, mas à incapacidade de sustentar nossa própria existência. Precisamos reaprender a atitude dos antigos quando observavam os ciclos da natureza e voltar a perceber que cada um tem um papel a desempenhar no mundo, e que todos somos parte importante desse processo.

É a partir dessa compreensão que aprendemos a arte da convivência. E o caminho até ela começa no respeito e na capacidade de recomeço. Precisamos renunciar a conceitos com os quais tivemos contato no passado e abrir verdadeiramente o coração para conhecer o que nos é estranho ou mesmo traumático, e então dar-nos a oportunidade de reconhecer no outro o mesmo tipo de busca que existe em nós, compreendendo que apenas os caminhos trilhados são diferentes, mas a busca espiritual de cada um, quando genuína, é igualmente válida, fascinante e, por que não, única.

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Responses

  1. *Soh uma coisinha, aumentar a letra do texto que com a idade, to ficando cega …rss Fora isso, A-dorei! Altruista, centrado, reflexivo e necessario. Cada vez, aprendo mais com suas inspirações 🙂 Que os Deuses lhe guardem sempre nas palmas das mãos. Bênçãos!

  2. Helena, antes de mais nada muito agradecido pelo seu comentário. Pensei em te responder em particular, mas acho que muitas pessoas têm esse mesmo problema e seria interessante comentá-lo em aberto. Minha opinião é que cada pessoa tem um tipo de lição a aprender e trilha um estágio muito particular no próprio caminho. Vou citar alguns exemplos:
    – Há pessoas que precisam se desapegar, e lidam com isso tendo o mínimo consigo e vivendo somente com o necessário;
    – Há quem precise curtir todo o que o mundo pode dar para sanar a própria sede de sensações, e vão para a balada;
    – Há quem anseie por ser repreendido ou mesmo punido, pois não conseguem lidar com as sensações que guardam no coração ou mesmo coisas que façam e que achem (ou mesmo saibam) quâo reprováveis são. Esses são uma maioria, e vão para diversos tipos de lugar, desde templos e seitas do tronco abraâmico onde pagam (muitas veses em espécie) por seus “pecados” até a práticas onde se submente a todo o tipo de submissão, dependendo do caso e da “sintonia” de cada um;
    – Há ainda pessoas que suportam suas religiões por saberem que o trabalho delas precisa de apoio. No meio pagão, qualquer cobrança é taxada de charlatanismo mas poucos são os que se importam e refletir sobre o quão oneroso e trabalho é o trabalho do estudo sério e foca numa prática religiosa, quanto mais o sacerdócio da mesma;
    – E há quem esteja ali para fazer algo que melhore o mundo. Esses poucos, que estão aprendendo ou mesmo conseguindo desapegar-se do próprio egoísmo, ajudam como podem a quem precisam, e embora a maioria ajude apenas a uma fé, quase todos não teriam o mínimo problema em socorrer outra, pois estão aprendendo a conviver não com rótulos, mas com almas.

  3. Esse maravilhoso texto só me mostra o quanto sou ignorante em relação ao druidismo.

    Eu acreditava que toda religião levava consigo certa dose de egoísmo quando pregava que sua verdade era superior a das outras religiões.

    Quero dizer, podemos ver isso claramente no catolicismo, que prega o respeito ao outro, mas é das primeiras a se manifestar quando algum povo com crença diferenciada comete um ato que os ocidentais cristãos consideram pecaminoso (como a poligamia, por exemplo).

    Eu estou feliz por descobrir que o druidismo é averso a essa intolerância.

    Tenho que confessar que, ainda que eu aplauda o texto e concorde totalmente com o que o senhor escreveu, seria falso dizer que sou mais que tolerante diante de determinadas práticas religiosas (como as arrecadações enormes da igreja universal, por exemplo). Eu estou buscando melhorar esse aspecto, entender que certas coisas não cabe a mim aprovar ou desaprovar e, dessa forma, apenas aceitar e respeitar.

    Obrigada pela reflexão!


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