Publicado por: Malhado | 14-12-2012

2° dia druídico – Tudo o Que Nos Cerca

Não existe história ou lenda celta que nos fale sobre o início do universo. Nenhum relato sobre como ou quais Deuses o moldaram, nem foi entoado pelos Bardos de outrora o porquê de o terem feito. Pelo menos é o que sabemos até agora, e é respeitando essa realidade que falarei. Para muitos, especialmente os criados no ocidente como o percebemos hoje, a ausência de uma gênese é estranha e chega a ser frustrante, mas em minha opinião aquela era uma época onde o presente se mostrava muito mais importante que saber o início de tudo. As diversas sagas relatando sua história de invasões e conquistas me fizeram entender que o foco daquela sociedade estava na compreensão dos ciclos, e não numa visão linear do tempo.

Acho bastante lógico e natural que um celta, vivendo numa sociedade acostumada lidar com guerras e expansões territoriais constantes e mesmo inundações que possivelmente inspiraram as histórias de ilhas que apareciam e desapareciam, buscasse meios de transmitir seus valores de modo simples e fácil de memorizar, fazendo com que perdurassem através do tempo e das mais avassaladoras e imprevisíveis mudanças, mantendo assim vivo o legado de seus antepassados e permitindo que gerações futuras tivessem acesso a sua cultura, suas crenças e sua forma de enxergar o mundo. Muitas sociedades da época tinham essa preocupação, mas o ponto que torna os celtas tão memoráveis e fascinantes foi o extremo cuidado em não deixar essa herança engessar e tornar-se inadequada aos tempos futuros. E se a recusa em escrever suas histórias e lendas foi prejudicial para que pudéssemos lê-las diretamente no original hoje em dia foi também uma ferramenta fundamental para que essa adaptação pudesse existir, comprometendo o mínimo possível o cerne do que quiseram transmitir pois elas não eram apenas contos e fábulas, mas a história de seu povo, dos nossos Deuses e heróis e de tudo o que havia então de importante e sagrado em suas vidas.

Em oposição ao modo celta de compreender a natureza e seus ciclos, distanciamo-nos dela e hoje temos uma vida voltada (e extremamente focada) no consumo. Tornamo-nos hipócritas, e dizemos buscar valores nobres enquanto os ignoramos. A maioria de nós é capaz de postar em suas páginas pessoais algo sobre sustentabilidade ou cidadania enquanto joga lixo pela janela do automóvel com uma mão e continua a navegar pela Internet num “smartphone” com a outra, ao mesmo tempo em que fura o sinal vermelho e quase atropela alguém sem se dar conta ou importar-se com que poderia ter ocorrido. Nosso bom senso se perdeu, e hoje em dia o único valor que importa é o que digo mais do que muitos gostam de ler ou escutar: o da conta bancária, do crédito ou ainda da pilhagem proveniente dos roubos que se comete contra uma pessoa ou todo um país. Nossa sociedade é formada por indivíduos no sentido mais cruel e perverso da palavra, e cada um não enxerga além do próprio umbigo.

Não interagimos mais nem mesmo com quem chamamos de amigos, e em plena explosão das mídias eletrônicas não conseguimos enxergar o outro à nossa frente, pois a tela hipnótica dos aparelhos eletrônicos cada vez mais portáveis torna as relações sociais cada vez mais impessoais, e o senso de respeito à vida diminui a cada clique, pois o que é cibernético não respira, não sangra, não sai sujo da caixa e, se estragar, basta-nos comprar (ou furtar) outro. Em tempos que o mundo digital poderia ser uma ferramenta de revolução de pensamento, nossa forma ensimesmada de viver o transformou no cabresto perfeito para o “admirável gado novo” que sempre nos tornamos.

E o rebanho se renova a cada ciclo, desta vez postando fotos do próprio umbigo em redes sociais enquanto curte ou repassa alguma coisa séria que uma pessoa ou entidade poste só para parecer engajado em alguma causa ou para ajudar em algo que não nos demos ao trabalho de ler porque aquela piada ou “meme” é muito mais legal de ver do que discutir assuntos chatos que não interessam de verdade.

Agora, antes de culpar a tecnologia que, quando a sabemos utilizar é uma ferramenta capaz de nos ajudar a realizar coisas fantásticas, pondere acerca da sua parcela não de culpa, mas de responsabilidade, essa sim uma palavra muito mais séria e eficiente, pois não lhe dá a saída fácil do arrependimento nem do perdão, cobrando comprometimento em assumir a sua parte em tudo o que as pessoas normalmente negligenciam.

A chave para entendermos o mundo como os celtas o enxergavam está na compreensão do que a palavra indivíduo pode significar, e à medida em que cada pessoa passe a se ver não como um fim para onde convergem todas as informações e oportunidades que as novas tecnologias, com os mesmos velhos truques e discursos, nos permitem receber e comece a se encarar como possibilidade de início para um processo capaz de catalisar mudanças e fomentá-las, aí começaremos a nos transformar.

Toda informação será filtrada e analisada de acordo com o próprio senso crítico e então partilhada com o mundo conforme conclusões conscientes, e não como resposta a um impulso qualquer. Cada um de nós será como uma semente que se aprofunda no solo e cresce para abraçar a copa de outras árvores, fazendo sombra não para escurecer o caminho, mas para confortar os viajantes que pode ali passem e saibam escutar os sussurros que chegarão aos seus ouvidos pelo vento, pelas vozes, pela convivência diária ou pela tela brilhante de aparelhos que não mais nos hipnotizarão, mas servirão de janelas para dentro de nossas almas.

Uma pessoa que alcança essa visão de si mesma deixa de ser um indivíduo no sentido de ser algo isolado do todo para entender-se como parte consciente de uma coletividade e parte desse tudo, que é muito maior do que hoje compreendemos. É então que conseguimos compreender o universo como algo que não está distante ou separado de nós,mas como um organismo vivo do qual fazemos parte, e embora nossa consciência seja individual, começamos a perceber um novo nível de consciência na qual estamos inseridos e que aos poucos aprenderemos a acessar.

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Responses

  1. Como sempre me estarrecendo c/ sua clareza. Como mera aprendiz, eu sentaria e ouviria horas a fio… contagiante, Obrigada! Bençãos e bjs


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