Publicado por: Malhado | 15-03-2013

5° dia druídico – O Solo Que Nos Sustenta e Nutre

Conectar-se ao solo imediatamente abaixo de seus pés é um dos mais importantes aprendizados que um druidista tem desde o início de sua jornada, e esse é um exercício para o resto da vida. São lições que começam ao andar descalço e ao saborear na pele o carinho do Sol e o orvalho da manhã, ao sentir nos lábios o doce sabor da fruta colhida do pé e o frescor da brisa do poente que traz a noite vestida de estrelas a um lugar sem muita iluminação onde podemos apreciar o céu, logo transformado pela iluminação e o crepitar do fogo embalado pelo ritmo de canções e da inspiração de versos e histórias, entoados junto a pessoas que trilham caminhos parecidos.

A descoberta da natureza como algo sagrado, ao invés de mera matéria-prima, é um marco fundamental na consciência de quem abraça uma fé ligada à terra, e cabe a todos nós cuidar para que o reencontro com o mundo natural seja algo tão rico quanto impactante, capaz de ressignificar conceitos e abrir a mente de quem chega para ideias que a sociedade encara hoje como sendo mito, piada ou obstáculo ao lucro, ao luxo ou à comodidade.

Logo de começo, precisamos aprender a observar essencialmente o que está mais próximo, pois provavelmente não são as belas paisagens onde caminhavam os antigos celtas que estarão sob seus pés agora, e se você está em outro canto do mundo, É preciso conhecer e aprender a respeitar, reverenciar, cuidar e, principalmente, agradecer ao seu chão. É o solo em que se pisa que suporta o peso de cada pegada, e negligenciá-lo é uma falha grave que leva quem a incorre em celebrar em desarmonia com a própria realidade. Ao nos permitimos viver em desarmonia com o que nos cerca afastamo-nos do ideal de harmonia com a terra que tinham os celtas e, por conseguinte, de um dos pilares do Druidismo.

Uma vez que nos permitamos comungar com a natureza à nossa volta como e onde ela se apresente, mesmo que através de um pequeno pedaço de grama desgastada e cercada pelo concreto ou por uma árvore que luta para sobreviver em meio ao asfalto deformado e rachado pela luta de tentar prendê-la, podemos olhar para o mundo que é resultado direto da nossa interferência e começar a planejar meios de tornar esse ambiente menos profanado, ou proteger e mesmo restaurar seu estado natural. Essa é a consciência que brota à medida em que nosso pensamento amadurece e começa a olhar para a natureza não como um retrato romântico, mas como um sistema de vida no qual estamos inseridos e que cabe a cada um de nós curar.

Imbuídos de um novo fôlego, prosseguimos. Nossas mentes imersas em teorias e informações, e o ativismo finalmente começa a florescer em nossos atos. Tudo vai muito bem, até que chega o momento onde uma apreensão pelo futuro do que agora é muito mais que um punhado de terra inanimada e seres acéfalos que a maioria considera estar a nosso dispor toma conta de nós, e o processo que antes fazia a alma pulsar no compasso pacífico de um coração que se sentia em casa agora escancara diante de nossos olhos a constatação do como nosso planeta realmente está, mas não estamos mais confortavelmente distantes, lendo manchetes de jornal ou escutando algum discurso ambientalista. Estamos imersos numa nova realidade que nos arrebata de súbito e nos tira o fôlego tão rapidamente que nossa voz falha, e sentimo-nos como que agarrados a um pequeno pedaço de chão, açoitados por ventos que comprimem nosso peito e gotas de chuva que marcam nossa pele enquanto os céus se rasgam num relâmpago imediatamente ao nosso lado, explodindo num trovão que abafa nosso grito aterrorizado.

E é nesse momento que, pela primeira vez, somos um com esse chão.

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Responses

  1. Maravilhoso texto. Como sempre 🙂


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