Publicado por: Malhado | 09-04-2013

O ódio alheio que nos contamina

Todo filho da terra deveria aproveitar esse momento histórico onde vemos boquiabertos o avanço de um fundamentalismo fortalecido sem que nada fizéssemos começar a colocar em prática seu plano de dominar nosso país a fim de bloquear ou suprimir nossos direitos, além de dissolver o parco Estado laico que conseguimos, e conversar seriamente com seus Deuses a fim de rever o próprio papel e o de todos nós, de credos tão diferentes mas cada vez mais necessitando nos unir em prol da sobrevivência comum.

Temos a oportunidade de descobrir a extensão da nossa responsabilidade no que tem acontecido e o quão comprometidos estamos em lutar pelos nossos direitos, pois se nada fizermos e o projeto dos fundamentalistas se concretizar, pouco poderemos fazer durante muito tempo, e viveremos o pesadelo dos oprimidos que depois de tantos anos de finda a ditadura achávamos ter sido purgado de nossa nação. Entretanto, temos antes de tudo uma responsabilidade primeira para conosco, com os nossos Deuses e com a nossa comunidade, de aprender a protestar respeitando a nossa vivência e crenças, inclusive de diversidade, e reinvindicar nossos direitos sem sermos contaminados ou nos tornarmos cegos pelo ódio que consome o coração dos fundamentalistas que nos atacam. Devemos lutar, em primeiro lugar, para não nos tornarmos eles.

Claro que esse arroubo de ódio contra tudo o que seja diferente deles e do que dizem acreditar atrai para os mesmos uma onda quase que imediata de revolta na mesma intensidade desse mesmo sentimento, e o repúdio e escárnio que eles lançaram sobre pessoas que apenas desejavam viver suas vidas agora se vira contra essa massa ensandecida que não enxerga nada além do que seus líderes lhes ordenam vejam. Servem em sua maioria ao enriquecimento e à implementação dos projetos de dominação que nada têm haver com a divindade que dizem seguir.

Eles se dividem em dois tipos básicos. A maioria dos voluntários no exército não uma divindade, mas desses estelionatários da fé, já foi vítima dos mais diversos traumas, desde a pobreza e da falta de oportunidade até a perda de uma pessoa amada ou a culpa incutida por suas famílias para os pensamentos que julgam impuros ou são socialmente reconhecidos como crime, o que não as inocenta da responsabilidade em fazer parte dessa muralha sombria que tenta sufocar qualquer pessoa cujo pensamento destoe de sua cartilha, mas pelo menos pode nos fazer olhar para elas como o que realmente são: marionetes. Outra parte, bem menos numerosa e muito mais perigosa, é constituida de pessoas que não mediriam esforços para conseguir o que desejam não importando quantos tenham de usar ou em quem tenham de pisar para atingir seus objetivos, na maioria das vezes econômicos. São pessoas que não têm consideração nenhuma pela sociedade e a vêm como um instrumento a seu dispor, e dentre elas estão os mercadores da fé aos quais idolatram como heróis divinos e santos, e aos quais chamam de pastores.

Como eu não creio em sua mitologia nem sigo a sua fé, e para mim a resposta para uma bofetada na cara não é dar a outra face, mas um bom soco no meio das fuças de quem me agride. Entretanto, se houver a mínima chance de ofender aos meus Deuses, aos meus antepassados ou ao solo em que nasci ou onde ora piso, bem como minha família ou minha comunidade, paro imediatamente a minha mão. Não pelos outros, mas por minha responsabilidade para com essa teia. E é isso que precisamos fazer, e ponderar sobre o que estã acontecendo. Nossa luta não é contra a fé cristã nem contra qualquer fé que seja, mas contra quem usa o sofrimento e a boa vontade alheios para criar nichos de poder e riqueza pessoal, geralmente à custa dessas mesmas pessoas iludidas.

Se eles têm seus preconceitos, nós também os temos, e o nosso papel é o de nos melhorarmos como pessoas e como comunidade. Então fica a minha sugestão: cure-se do ódio alheio antes que seja tarde e os Deuses virem-lhe as costas pois não te reconhecerão mais como Seu filho ou Sua filha. Procure um amigo que seja um cristão esclarecido e sério, ou mesmo alguém de uma fé diferente da sua (ou da ausência dela) e debata o assunto sem agressões ao que essa pessoa acredite. Provavelmente você descobrirá, mesmo que por extrapolação, que os cristãos de verdade não são iguais aos monstros que nos perseguem. Busque a paz para si e para os seus, e proteste não contra o pastor, mas contra o criminoso que está lá. Desidentifique o monstro da máscara que ele usa para enganar suas vítimas mais próximas, que formam exatamente sua base de apoio e exército, e não extenda seus ataques a quem nada tem haver com o fato. Isso além de te tornar não hipócrita e mentiroso quanto ele, apenas reforçaria suas fileiras com pessoas que se não se sentissem atacadas por você jamais estariam ali.

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Responses

  1. Muito bem argumentado, irmão. Embora o ponto principal em sua motivação tenha sido abordado de forma mais superficial: o potencial FIM do nosso estado laico. Mas, nesse ponto, a lei que criminaliza a simples rejeição pública seguida de tentativa ou consumação de vergonha pública acerca do homossexualismo já deve colocar em seu lugar de direito (a cadeia!) os fundamentalistas. Infelizmente, irmão, esses mesmos fundamentalistas mencionados por você têm uma arma praticamente infalível: a ignorância (pela pobreza ou por opção) das pessoas.

    Pessoas que buscam em uma igreja, em um templo, confortos pessoais, para si ou para outrem. Pessoas que não enxergam o depois de amanhã, então acreditam no amanhã proposto por seus líderes fundamentalistas. Igualmente tenebrosa é a posição cristã-católica oficial, aquela que vem do Vaticano, para onde, por mais de 250 anos, quase toda a riqueza em ouro, prata e diamantes das Américas foi levada e, em troca, ficaram a pobreza e a ignorância cega e, muitas vezes, conveniente. Claro, como uma igreja vai aceitar práticas que vão contra uma parte que julgam essencial em suas escrituras? Não podem, pois seria relativizar o texto, base de suas crenças e/ou dogmas (alguns simplesmente impostos sem base alguma no texto). Entendo e respeito que não se o relativize. Mas há que se questionar o próprio texto, uma vez que passou por traduções, humanamente falhas e, pior, por adaptações que visaram o interesse de uma ou mais vertentes cristãs.

    Aproveito para, aqui, lembrar que, em países e/ou comunidades islâmicas, os que fazem uso das práticas em questão aqui são mortos à pedra. Assim como os adúlteros. Enfim, lavro suas palavras, bem colocadas e vindas num momento mais que necessário e oportuno. Mas deixo, aqui, apenas uma motivação, em forma de pedido: que se ataquem as tentativas de findar o caráter laico do Estado antes que seja necessária uma revolta popular violenta (e me parece que é exatamente isso que os fundamentalistas querem provocar: reações violentas dos representantes dos “outros” grupos, pois, assim, voltam às suas igrejas, às suas comunidades com os dizeres: viram como são errados, violentos e sem amor?! Viram como são dominados pelo mal? Viram como devem ser, sim, combatidos?).

    Abraços e felicidades, sempre!

  2. Malhado, você falou de um fôlego só. Tirou as palavras da minha boca. Essa de dar a outra face é emblemática. Eu não dou.

  3. Texto também publicado em Alanisando.

  4. Estou apaixonada pelo texto, disse o que sufoca na minha garganta e que do meu jeito arcaico tento dizer. Mas, que dito por um bardo com toda sua propriedade, toma outra forma. Longe de um desabafo revoltoso, mais do que uma reflexao presumida, mas uma mensagem sabiamente captada ADOREI! Bjs e Bencaos !

  5. Eu estava pensando nisso tudo hoje.. e cheguei à uma conclusão. Este é o momento em que os hipócritas se revelarão e teremos a real noção de quem é leal aos seus principios e fé ou não. Máscaras tem caído e pessoas cada vez mais tem se assumido em diversos aspectos. É chegada a hora de nos posicionarmos de forma firme porém suave.. sem desonrarmos nossos Deuses..

    Que os Deuses sigam te abençoando!!


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