Publicado por: Malhado | 21-05-2015

Nossos templos deveriam ser cemitérios

Parece uma proposição soturna, mas não deveria ser, e segundo minha opinião essa é a opção mais adequada às nossas necessidades. Não falarei aqui de nada que remeta ao gótico, a poemas lidos sobre tumbas nem a nada que o senso comum possa entender como nefasto. Falarei de bosques, de beleza, de família e de um contato com a natureza que está cada vez mais nas histórias e menos em nossas práticas. Falarei de resgate e de redescoberta, e de como podemos nos tornar aquilo que sequer imaginamos ser possível.

Se há uma coisa com a qual eu sonho para a nossa comunidade é que possamos ter nossa prática em paz e com a seriedade que ela merece, e tudo começou a parecer possível há algum tempo atrás, quando eu li algumas matérias sobre uma nova forma de funeral que achei muito interessante: uma urna onde você deposita as cinzas de um ente querido (humano ou não, existem urnas para pets) e coloca essa urna no solo, onde virará uma árvore da sua escolha. Isso aflorou em mim uma reflexão profunda sobre o como encaramos nossos ritos e como desprezamos certas coisas essenciais para fortalecer nossa identidade e nosso contato com o que acreditamos ser sagrado, e essa notícia tornou-se solução possível para uma área de ritos relegados: os fúnebres. Veio também de encontro há uma coisa que me incomoda muito: o fato de não termos templos e não nos organizarmos enquanto comunidades para tê-los.

É  entre árvores que somos felizes, mas um bosque demanda cuidado e, principalmente, terreno. A fim de sanar ambos os problemas essas urninhas serviram de ponto de partida para que eu pensasse em formas de viabilizar um bosque calcado na ancestralidade, plantado inicialmente com árvores de vida curta, de modo análogo ao como as bétulas atuam (mas infelizmente parece que não moramos em solo onde elas se adaptem) e aos poucos preenchendo as clareiras com árvores mais longevas, preocupando-nos sempre com a compatibilidade vegetal a fim de evitar que árvores não adaptadas ao terreno, à biodiversidade e ao clima causem algum um desequilíbrio ambiental em nome da árvore tal que achamos linda mas que acabaria com as chances de uma árvore nativa vingar, tornando-se predadora, como ocorreram com as jaqueiras na Floresta da Tijuca – RJ*.

Encampar essa ideia é algo complicado de se fazer, pois há muito estudo a fazer e muito a se pensar. É necessário pesquisar a lei a fim de viabilizar um cemitério nosso (em uma pesquisa rápida no Google achei uma legislação, para quem se interessar em conhecer), e há que se conseguir fazer com que nossa força política e/ou econômica seja suficiente para recebermos um terreno ou que o compremos. Existe ainda a eterna luta por definir o que é e o que não é, de fato, Druidismo ou Reconstrucionismo Celta e como essas práticas, conforme aceitas, mas em meios de usar o espaço de forma realmente respeitosa e como nossas práticas afetariam tanto quem agora esteja em forma de árvore, morando ali, quanto quem ali frequente. Somemos a isso questões que tocam conceitos além do mero ego, mas com as quais temos de lidar, e a necessidade de protegermos esse espaço tanto de bandidos comuns quanto dos vândalos da fé que se espalham por nossa nação como praga mais perigosa ainda do que as que a natureza tem e com as quais teríamos que lidar ao cuidar desse local e teremos os primeiros grandes desafios que teremos de lidar para que possamos fazer algo acontecer.

Apresentados os primeiros problemas, é preciso angariar forças para enfrentá-los, e a ideia de termos um lugar arborizado em cujo centro podemos ter um templo que conte, quem sabe, com escola e biblioteca para nossos estudos e nossas crianças, e que ainda por cima seja local de reunião onde possamos fomentar o estudo e prática de nossa cultura, é um sonho possível e factível. Um santuário onde grupos diferentes possam coexistir em paz, sob as bênçãos dos nossos antepassados, a proteção de nossos Deuses e o aconchego da natureza. um local onde possamos viver sem medo de sermos filhos dos Deuses e onde sacerdócio seja realmente uma função, e não uma tendência colocada em prática na raça e de acordo com a necessidade de nossos pequenos grupos. Um lugar onde todos nos sentiremos em tribo, mesmo que pertençamos a “famílias” diferentes de um pensamento que aponta na mesma direção.

Eu sonho com isso, e quis compartilhar esse sonho com você, na esperança de semear uma realidade futura.

 

* As jaqueiras começaram a matar as árvores nativas da Mata Atlântica da Floresta da Tijuca e tiveram de ser sacrificadas. Não sei se apenas uma parte delas ou todas.

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Responses

  1. […] via Druidismo: Nossos templos deveriam ser cemitérios. […]


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