Publicado por: Malhado | 07-11-2017

Argumentação Confortável

As argumentações que tecemos para defender nossos pensamentos buscam não a dialética, mas o eco dos que concordam conosco e, em o fazendo, privam-nos do principal benefício do diálogo: o crescimento e amadurecimento de nossos horizontes e ideias.

Nossas redes sociais, percebendo essa necessidade de corroboração, criaram “bolhas ideológicas” e, embora o motivo pelo qual o façam seja assunto para ser discutido em outro momento, o fato é que isso reforça o hábito de conversarmos mais com quem concorda com a nossa visão de mundo, nossa ideologia política, social ou qualquer ideia que defendamos, em qualquer área. O resultado disso é que estamos experimentando dificuldades cada vez maiores ao encontrarmos argumentos e posicionamentos divergentes pois estamos nos tornando cada vez mais polarizados, e estarmos assim é interessante para quem nos deseje controlar.

Na prática, buscando essa argumentação confortável e evitando testar as próprias “verdades” contra argumentos divergentes, criamos nossas próprias bolhas, também, e tal qual acontece nas redes sociais, selecionamos nosso “círculo de conveniência” – e não mais de convivência – de acordo com essa reafirmação do que acreditamos. Crença, aliás, é o ponto fraco desse modo de vida, pois é através dela que nos radicalizamos, fanatizamos, tornamos debate em discurso de ódio e passamos, principalmente a acusar o outro de ser o único a fazê-lo. Durante este processo, que começou tranquilo e termina em arroubos de ódio, que predadores os mais diversos usam a indignação, a ira e principalmente a desinformação para nos transformar em massa de manobra para servirmos aos seus objetivos pessoais enquanto permanecemos iludidos e crentes de que estamos lutando por algo que essas pessoas não têm a mínima intenção de levar adiante.

A solução para isso é simples, mas nada fácil: saia da sua zona de conforto e duvide primeiro de tudo o que acredite. Ouça o outro mesmo que discorde dele não para ser convencido da ideia que ele defende, mas para encontrar meios de melhorar seus conceitos e seu modo de encarar o outro, mas faça isso com empatia, e não com preconceito ou desdém. Toda ideologia, por mais errada que esteja, tem algo de interessante através do qual se torna interessante para o grupo que a defende e, desta forma, pode ser fonte de inspiração para que você pense num mundo melhor.

Escute. Mais do que falar, realmente entenda o que o outro quer dizer, não apenas para encontrar os erros no discurso, pois a oratória da pessoa pode não ser boa, mas isso não afeta a convicção que ela tenha ou o mérito do que acredite e, aliás, muito cuidado com a oratória, pois defender bem uma ideia não a torna boa, apenas fundamentada e você só saberá se esses fundamentos são bons ao pesquisá-los com paciência e imparcialidade. Se for ao vivo, converse olhando nos olhos e prestando verdadeira atenção ao que é dito.

Não se iluda: este não é um processo fácil e muito menos indolor, mas quando testamos nossas convicções e trocamos a conversa fácil com quem nos aplaude para realmente questionarmos nosso mundo e nos colocarmos no lugar do outro, crescemos e poderemos ser elementos fundamentais da mudança que buscamos no mundo. Uma mudança que, quase com toda certeza, não será como imaginamos no início do processo.

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Responses

  1. Ótimo texto, bem atual sobre as birras de internet de facebook. Outrora as pessoas dialogavam com respeito com objetivo de chegar a um ponto comum.


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