Publicado por: Malhado | 29-10-2018

A Grande Festa da Democracia

Então acabou. Um presidente foi finalmente eleito. Sobra a esperança por tempos melhores para o lado “vencedor” e o desespero da incerteza para o lado “derrotado”. É uma grande festa de memes, pipocando em nossos celulares mais rápido do que possamos dizer democraticamente. É lindo ver os eleitores sair às ruas e fazer um candidato que não tinha dinheiro ou tempo de TV ser eleito graças ao poder da Internet! É como se fôssemos a Primavera Árabe que deu certo!!! O povo finalmente abre as portas para um novo futuro para toda a nação!!!

Passadas algumas horas, ainda sob algumas buzinas além do horário permitido e escutando os fogos de artifício neste início da madrugada porque o brasileiro ainda não sabe ser educado, debruço-me ao teclado e imagino-me olhando nos olhos de quem me lê, agora. Olho nos seus olhos e te convido a ler as reações dos perdedores nesta data histórica: 28 de Outubro de 2018. Observo seu semblante imaginário percorrer a sua linha do tempo como se eu estivesse atrás da tela do seu computador enquanto lembro de ter convencido uma pessoa homossexual a não se suicidar e ter tentado tranquilizar tantos outros que pretendem sair das redes sociais com medo de perseguição e retaliações por terem votado naquela à qual até chamam de a maior organização criminosa da história.

Imagino quantas vezes algo como “É muita frescura!”, “Chora Carolina!” ou É melhor ‘Jair’ se preparando pra mudar pra Venezuela! aparecer na sua tela. Para mim é tudo muito… real. E muito surreal, também! Imagino seus olhos, leitor, percorrer linhas ou assistir a depoimentos em vídeo desesperados dos que até alguns meses atrás você estaria abraçando e que agora se tornaram o adversário, o inimigo da democracia, e não importa qual lado fale, é isso o que um diz do outro. Talvez o terrorismo psicológico nunca tenha sido usado em nosso país com tanta finesse, digna do Marquês de Sade ou de Maquiavel, mas certamente foi a vez que mais fortemente o sentimos.

Imagino pessoas com medos reais de serem perseguidas, torturadas, assassinadas, cerceadas, deportadas ou qualquer outro evento trágico em suas vidas graças à cruel produção de notícias falsas e acusações exageradas ou mesmo totalmente infundadas. A verdade não mais importa pois o medo não obedece à razão, e penso nos dedos trêmulos que digitavam cada palavra, enquanto o outro lado (e talvez você) estava mais preocupado em celebrar a vitória sem perceber como cada meme foi cravado qual adaga na alma de quem as recebia e não estava entre os ébrios sorridentes. Você deve ter lido e quem sabe ignorado ou até rido dessas lágrimas, mas elas estão lá, mesmo que vertam só na alma enquanto quem escreve esteja silencioso e atônito demais para deixar que fluam.

A estratégia do terror foi precisa e cruel, e qualquer olhar crítico minimamente desapaixonado mostra isso quando se lê essas linhas de quem votou no candidato derrotado. A questão é que ambos os lados foram igualmente cruéis e usaram as mesmas táticas. O medo achou um terreno fértil na fala sem filtro e debochada do agora presidente da república que escolhemos e na sempre atuante militância que alegremente postou ser o caixa dois depois das acusações feitas pelo opositor. Floresceu também nas colocações do vice-presidente eleito, e isso foi bem explorado por profissionais de ambos os lados que ganham muito dinheiro criando heróis e vilões com narrativas cuidadosamente preparadas com uma única intenção: enganar o povo.

As pessoas que votaram na esquerda agora observam a derrota massiva que deixou claro que o Brasil não quer mais a corrupção e não vai mais perdoar quem a comete, mas elas também enfrentam os fantasmas deixados pelas táticas terroristas usadas na campanha e são parte de um país fragmentado assim como você. A polarização não acabou. A luta pela democracia continua! E essa batalha só pode ser vencida com uma palavra: o diálogo. Para curarmos o país precisamos descer de nossos pedestais de superioridade moral, não importa em quem tenhamos votado, arregaçarmos as mangas e trabalhar em prol da cura uns dos outros, pois os dois lados estão seriamente doentes. O nosso povo está muito doente e tomado pelo ódio.

Pare um pouco de olhar para o seu lado da “verdade” e olhe para o do outro. Abrace a dialética que somente é possível através de conversas francas e desapaixonadas, sob a efígie do respeito mútuo. A hora de celebrar já passou. É hora de trabalharmos juntos para que nosso país volte a ser um só e seja livre dessa energia nefasta que nos separou e explora reações primais que nós levam a crer que estamos geralmente certos e o outro, errado.

Abra sua mente para as ideias do “adversário” e realmente os escute. Ambos os lados querem o bem do país e discordam apenas na forma de se chegar a um bom resultado, mas quem controla o povo qual marionetes e tem o real interesse de nos ver aterrorizados e divididos em grupos cada vez menores, em bolhas sociais cada vez menos abrangentes e cada vez mais controláveis, controla também o contexto de cada fala. Como? Bom, se você realmente leu este texto todo o que está em negrito te pareceu um tanto estranho, mas se você apenas passar os olhos pelo que escrevo o seu cérebro vai apenas absorver o que está em negrito e uma ou outra coisa. E tendo a sua atenção voltada apenas para parte do texto ele perde o sentido original e parece ser uma coisa completamente diferente. E é assim que as pessoas se informam quando sabem que a informação vem do “inimigo”, pois já assumem que ela seja falsa ou exagerada.

É nos libertando do preconceito que nos leva a ver apenas parte do que o outro fala e ousando mergulhar em suas opiniões e críticas que podemos nos reencontrar e, então, poderemos finalmente dizer que nós somos os vencedores e os verdadeiros donos da nação!!!

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