Publicado por: Malhado | 06-01-2019

Rosa, azul, vermelho e cinza

Eu não creio na História sem análise de fatos, então escutei e reescutei o fato: o discurso da Ministra Damares Alves que tanto deu o que falar. Como uma pessoa bastante crítica ao pouco que sabia do currículo e aos posicionamentos atribuídos a ela eu senti que devia analisar tais fatos. Estas são as minhas impressões sobre o que escutei dela no discurso.

“O Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã”.

A frase foi dita como ponto de descontração no início do discurso e, embora quando tirada de contexto preocupe, dentro dele não vi nada demais. Apenas uma pessoa se referindo à própria fé, o que não deveria causar espanto por si só mas, especialmente pelo slogan com o deus cristão acima de todos que este governo usa, traz um pouco de medo para o discurso que se inicia. Com o progresso da fala, o medo se dissolve em cautela pelo que virá não em palavras, mas em ações. Já no final do discurso o medo cessou.

“Todas as configurações familiares nesse Brasil serão respeitadas”

Espero que sim. Escutar isso foi um bom começo. Mais tarde ela fala da sua própria configuração familiar, sendo ela mãe adotiva de filha indígena. Mais tarde ela fala especificamente sobre a comunidade gay (e não, eu não uso a tal sigla porque gay significa alegre e a sigla é fria, chata, estressada muda o tempo inteiro).

“Seremos proativos para evitar a gravidez inesperada que alcança meninas cada vez mais novas”.

Acho impossível cuidar desse problema, que é de saúde pública, sem cair num desastroso projeto de doutrinação teocrática cristã nas escolas. Educação sexual nas escolas é necessária e precisa ser feita corretamente, respeitando a idade e a fase de cada pessoa e de acordo com estudos sérios de quando problemas estejam afetando nossas crianças. Fiquei curioso para ver o que ela fará, mas não ficou parecendo que a doutrinação cristã esteja na pauta.

“Um dos desafios desse governo é acabar com o abuso a doutrinação ideológica. Trabalharemos junto com o Poder Público para construir um Brasil onde nossas crianças tenham acesso à verdade e sejam livres para pensar”.

Acabar com o abuso ou redirecionar para uma doutrinação diferente? Esta é minha preocupação com o “Escola Sem Partido” e o currículo religioso dela continua a preocupar, mas não tanto quanto o discurso político de outros membros do governo.  Este é um tema ao qual é preciso ficarmos atentos.

“A criança mais nova que está falando com esta ministra e quer se matar e está se cortando tem apenas 7 anos de idade, mas há registro no SUS de crianças de 5 anos de idade. O Suicídio alcançou as nossas crianças e adolescentes, e este Ministério vai dar uma atenção especial (…) à questão do suicídio e automutilação de crianças, jovens e adolescentes. (…) Isso é um fenômeno que nós vamos aprender a lidar com ele, e nós vamos aprender isso juntos, Ministério, pais, famílias… todos juntos no combate ao suicídio e à automutilação”.

Foi a partir daqui que o discurso começou a ficar interessante, e nunca escutei nenhum governo falar disso. Acompanhei meu filho ter vários amigos com esse problema e o orientei o melhor que pude. Ele mesmo tendo pensado em se matar quando mais jovem, encontrou em mim o suporte necessário para seguir seu caminho e seus sonhos, tenho ajudado não apenas a si, mas a seus amigos, sem introjetar o sofrimento deles e atuando junto a eles de forma positiva.

Este é um problema seríssimo e extremamente silencioso até então. É um bom sinal ver que esse Ministério olhará para esse ponto.

“Um dos principais ativos de nosso país é a diversidade cultural. Povos, línguas, raças, credos e cores fazem parte da alma do povo brasileiro. Todos nós temos um pouco de cada um. Este Ministério cuidará de todos, respeitando as suas individualidades, promovendo políticas públicas equitativas que ofereçam oportunidades, e proteção a todos”.

Há dois pontos aqui que achei interessante, analisando da minha visão como sacerdote: a ênfase em que a nossa diversidade é um ativo e a promessa pelo respeito a essa diversidade, especialmente no tocante à crença. Essa era a minha principal reserva contra o nome da ministra à pasta e minha maior preocupação envolvendo o seu trabalho.

“A Lei Brasileira de Inclusão (…) está aprovada desde 2016… 2015 e ela ainda não foi regulamentada. E aqui eu trago a boa nova: o presidente Bolsonaro determinou que nos próximos meses seja regulamentada a Lei Brasileira de Inclusão”.

Tornar-me uma Pessoa Com Deficiência e sentir a dificuldade para atividades as mais corriqueiras mostrou-me uma realidade que ninguém está preparado para vivenciar. Hoje entendo bem melhor, embora ainda não completamente, o que passa uma pessoa deficiente e ainda estou no limbo entre saber se sou ou não, ou se sou em parte, etc. A definição é uma zona e a não-regulamentação dessa lei é parte disso.

Ter no discurso um lembrete disso é importante, ainda mais com o brasileiro começando a perceber que aquelas pessoas que têm tantas vagas “privilegiadas” não têm privilégio algum, e sim necessidades especiais. Gostei do como isso é abordado e de saber que a ministra esteve envolvida com essa lei quando assessora.

“Lutaremos contra a tortura. Teremos um diálogo aberto com a comunidade LGBTI. Nenhum direito conquistado pela comunidade LGBTI será violado”.

Não há margem para interpretações, aí. Nenhum direito conquistado será violado. Agora é esperar para ver o que será feito por essa parcela da população, que é uma das mais aterrorizadas o resultado das eleições.

E então o discurso muda de tom…

Depois dessas frases ela fala um pouco de si e chora ao falar da filha adotiva que não pode estar no evento pois ambas foram ameaçadas de morte. Vale a pena ler o que ela disse antes de continuarmos a análise:

“Minha história não foi respeitada, e por muitos meios de comunicação. Como vocês sabem, senti na pele o abuso físico… sexual… psíquico… e nos últimos dias também o abuso moral foram implacáveis comigo. Minha crença virou chacota e motivos de risada tanto nas redes sociais quanto pessoalmente. Inclusive por grandes intelectuais, parlamentares, líderes de partido…

“O Abuso que sofri. Algo íntimo, compartilhado entre os meus irmãos de fé e de quem nunca escondi, virou manchete de jornal. Nunca falei da minha vida íntima como discurso de Estado. Não tenho nenhum orgulho de ter sido barbaramente abusada. Isto não é orgulho e isso não me fez ministra.

“Não fui respeitada. Não fui respeitada como menina, como mulher, como mãe e como filha. Não fui respeitada como brasileira. Minha história não foi vinculada com muito conforto e motivo de superação, mas como escárnio por uma pequena parte da mídia e de forma irresponsável. Quando riram de mim, riram de um terço das meninas do Brasil que são abusadas sexualmente”.

Neste momento eu só conseguia me lembrar de tantos e tantos “filhos da terra” que arrotam serem filhos dos Deuses e “se acham” o próprio Merlin enquanto escarnecem nas redes sociais sem sequer tentar entender o que foi dito. Essas pessoas, cegas pelo preconceito e pelo ódio fomentado mais fortemente desde o processo eleitoral de 1994, onde a polarização PT-PSDB foi inaugurada, correm para “lacrar” e “viralizar” memes, mas eu não soube de uma sequer ter dito que assistiu ao tal discurso. Eu, percebendo o forte movimento de pessoas nesse sentido, resolvi assisti-lo e, como alguém que foi vítima de abuso na infância, parei e escutei essas palavras algumas vezes enquanto a compaixão pela ministra arregalava meus olhos ao imaginar o que a nossa sociedade se tornou.

Não importa se disseram que ela faz ou disse algo, eu fui lá ver o contexto, escutar a fala, tirar minhas próprias conclusões, e 18 anos após ter iniciado minha jornada rumo ao sacerdócio eu olho para a imagem daquela senhora no vídeo e fico chocado ao ver a que ponto chegou a minha comunidade onde não-raro acho sugestões de matar o Bolsonaro em “memes” compartilhados irresponsavelmente. Percebo a maior parte dela sem qualquer empatia por aquela mulher, pois ela não coaduna com o pensamento ideológico que dominou meu povo e nem compartilha da mesma fé que eles.

Envenenados contra quem quer que se oponha à “verdade” que acreditam e repetem não em azul, rosa ou mesmo em vermelho, mas em tons de cinza fúnebres qual uma mortualha frenética e ávida por sangue, eles clicam e clicam e gargalham da desgraça dela com base em frases tiradas do contexto e repetidas por quem quer tudo, menos que sejamos novamente uma nação.

Eu me compadeço dos filhos da terra e choro a morte do espírito que habitava cada um deles, agora substituído pelo ódio irracional. Penso em quantas vezes cheguei perto de tornar-me eu mesmo um desses zumbis e perder-me não da minha opinião ou preferência X ou Y, mas de mim mesmo, e faço uma pausa no vídeo enquanto, num segundo, a imagem dessa cena me vem à mente e toma horas para deixa-la pelos meus dedos para estas palavras.

Para a maioria de nós a empatia está morta. Dá-se o nome de “resistência” ao que deveria ser chamado de morte da alma devido ao envenenamento pela cólera. A verdadeira resistência é arregaçar as mangas e trabalhar, aceitando que a democracia finalmente seguiu seu rumo, apesar de estar contra tudo e todos.

Respiro… e o vídeo continua. Ela fala sobre os indígenas o drama de mães que precisam enterrar vivas as suas crianças, e embora este seja um assunto que eu poderia falar num texto em separado, deixarei que quem assista ao vídeo reflita por si. Cito apenas a frase de Damares sobre isso:

“Mas eu vou dizer uma coisa pra vocês como uma terrível cristã: é o choro que o Grande Tupã escuta, e o Grande Tupã ama curumim”.

Em suma, tudo o que escutei a respeito dela, e eu pesquisei bastante sem achar nenhuma fonte confiável, era falso. Darei a ela um voto de confiança, assumindo ter criticado a escolha de seu nome para a pasta sem elementos suficientes para ter formado a opinião que formei. Foi uma gota de cólera que espirrou, e graças aos Deuses que não foram três.

Se há uma coisa que aprendi com essa coisa ridícula do rosa versus azul que tomou a mídia é que a grande maioria das pessoas está tão fortemente manipulada que não consegue mais enxergar além do boato, e o fato… abafado e fátuo, é brilho inerte que não chama mais a atenção das pessoas.

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