Publicado por: Malhado | 23-04-2019

A Fé e o Escopo da Religião

Vivenciar a fé é algo pessoal, mas rotular o que você pratica como uma religião envolve um compromisso e uma conscientização maiores, do tipo que as pessoas estão cada vez mais “alérgicas” a assumir. Tem se mostrado cada vez mais fácil fugir de deveres e responsabilidades, geralmente usando a sua “liberdade de culto” como defesa para distorcer e mesmo subverter o que dizem seguir. A questão, entretanto, é que não existe liberdade de fato sem responsabilidade.

Como falei, a fé é uma experiência pessoal e ela nunca será a mesma de uma pessoa para outra. Vivenciar o fenômeno religioso deve e precisa ser algo livre, mas no momento em que você decide definir a sua vivência como uma religião específica é necessário saber o que se faz e ter a postura ética de separar o que faz parte apenas dela do que seja a religião. Não se pode fazer algo de cunho pessoal e que tenha significado para si mas desprovido de uma profunda relação com os dogmas, a liturgia, a história, a cultura e os valores que formam uma religião e rotular isso pelo seu nome.

Extrapolar o seu direito a fim de definir o que você faz com um rótulo que envolve muito mais pessoas é algo não apenas desrespeitoso para com o outro, mas um crime tão hediondo quanto, por exemplo, um estupro. Isso não é liberdade, é no mínimo uma irresponsabilidade, quando não um ato de má fé. E no momento em que você começa a divulgar algo que você pratica como parte de um sistema religioso você está invadindo o íntimo de outras pessoas e atacando o sentimento de sagrado de todos os que seguem essa fé, e não apenas uma ideia ou um conceito abstrato que, outra das justificativas para tentar justificar o injustificável, “não tem direitos”.

Ideias não têm direitos, mas aqueles que as abraçam têm o direito de serem respeitados, e quando você está invade de forma violenta, literalmente violentando, o que é sagrado para outras pessoas em nome da satisfação do seu próprio ego ou, e isso é bem mais comum do que se pensa, em nome de um projeto de poder, de lucro ou mesmo ideológico, você é antiético e, do ponto de vista da ética, criminoso.

Na verdade, chamar de estupro é em si um reducionismo, pois a violência praticada contra todos os fiéis que não seguem a sua forma de interpretar “livremente” um caminho sagrado é na verdade um “estupro em massa” como o cometido pelos russo quando a invasão da Polônia ou algo hediondo como os campos de concentração, e o tráfico de escravos.

Não há exagero nessas comparações. O que existe é uma percepção cada vez mais apartada entre as pessoas e o mundo, e numa jornada rumo ao próprio umbigo o ser humano substitui a empatia pelo culto ao si mesmo, onde não existe espaço para ninguém além do narcisista que grita sobre os direitos que deseja, ignora os deveres que renega e pisa na ética e no bom senso enquanto faz birra por não ter o mundo a seus pés. Nesse transe nefasto, somente o som dos aplausos de quem concorde com esses ególatras é considerado, pois os demais não têm o direito a opinião ou a terem a sua fé respeitada.

 

Muitos desses ditadores da religiosidade se dizem sacerdotes ou assumem posições de alta importância entre os leigos de suas instituições religiosas, pois o que seria de um ditador sem a coroa, o cetro, o poder de decisão sobre o outro ou um manto para adornar-lhe o ego?

 

O escopo de cada religião é definido, tem a ver com seus dogmas, sua cultura de origem, o momento histórico onde foi desenvolvida, a migração de seu lugar de origem para o local onde cada pessoa está, a visão original de mundo de um povo. Nenhuma dessas coisas, entretanto, tem a ver com o que o fulano pensa que ela é, mesmo que esse fulano seja você ou eu. Vivenciar a espiritualidade de acordo com o seu sentimento religioso não lhe dá direito de rotular a sua experiência religiosa com o nome de uma religião específica, e fazê-lo é um desrespeito ao que seja essa religião, à religião ou religiões das quais esteja “importando” a sua prática, às pessoas que seguem cada uma das religiões envolvidas e ao legado histórico-cultural que as formam.

A atitude honesta é simplesmente dizer que a sua prática é algo pessoal e não está presa a rótulos ou dar um nome original ao que se pratique sem precisar roubar para si um nome que não é o seu. Essa atitude, entretanto, vai de encontro ao principal motivo que leva as pessoas a abraçar um sistema religioso qualquer: o de se sentirem especiais, seja como “povo escolhido”, seja como pessoas mais “evoluídas” com relação às demais, “menos esclarecidas”. E quando se usurpa um nome para algo que se inventa ou sincretiza a fim de conseguir um reconhecimento para as próprias práticas ante aos que se arrebanha ou aos que se deseje impressionar, ao invés da necessidade de introspecção, autoconhecimento e conexão com o divino que devem ser o motivo de toda a jornada de fé, você pode estar visando qualquer coisa, menos o sentimento religioso em si.


Responses

  1. Lindo texto!
    Perfeito aos que se escondem atrás de uma religião. Pessoas essas que ao invés de viver a prática preferem se esconder por trás de espíritos. Em sua maioria impõe respeito por trás de suas entidades, o que não é correto, nem consigo mesmo quem dirá com a espiritualidade.


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