Publicado por: Malhado | 23-02-2016

8º dia druídico – Prática Diária

A vivência do Druidismo dá-se no cotidiano, e embora muitas pessoas gostem, optem e mesmo sintam-se melhor ao fazê-los, não há necessidade de ritos quando cada gesto é um pequeno ritual que te conecta aos Deuses, aos antepassados e ao solo. Essa forma de encarar o mundo é a essência da minha prática druídica, e é sobre essa forma de estar conectado com o que muitas vezes ignoramos e que ainda precisamos aprender a enxergar que resolvi falar.

Desde o último texto, demorei quase três anos olhando para esse texto até que eu achasse em mim o que faltava transcrever aqui. Faltou nesse tempo, basicamente explicar uma coisa: na sua vivência druídica, estando você num momento de rito, solenidade, recolhimento ou simples caminhada diária, você será sempre um filho e um instrumento dos Deuses, de acordo com o comprometimento que decidiu ter com Eles. Jamais esqueça-se disso.

Leigos ou sacerdotes, curiosos ou estudiosos, todos podemos perceber diariamente quais são os desafios para tornar a prática da nossa fé e dos nossos estudos mais verdadeiros e significativos, cada um com as nuanças que lhe caibam. Cito aqui apenas alguns conselhos, não para seguir uma prática, mas para que descobrir a sua forma de vivenciar o Druidismo sem sucumbir ao pior de todos os obstáculos que encontrará pela frente: você mesmo.

Conheça a sua fé

A primeira coisa a fazer é compreender o que é o Druidismo, pois em meio a tanta informação que hoje podemos encontrar na Internet há também quem divulgue os maiores impropérios uma vez que hoje, mais do que nunca, para divulgar uma ideia basta estar conectado.

Existem um sem-número de vertentes druídicas no mundo, algumas que o encaram como religião, outras que o encaram como filosofia de vida e algumas, inclusive, veem os Deuses como manifestações arquetípicas do deus cristão, por exemplo. Essa é uma discussão complicada e geralmente mais problemática do que frutífera, e se você está começando a trilhar um caminho druídico eu te aconselho… não, eu te peço com veemência que estude e, principalmente, que não coloque a sua jornada sob a responsabilidade de outra pessoa que não de si.

Também não posso te dizer uma definição que abarque o que seja o verdadeiro Druidismo. Darei, então, uma definição ampla, simples e básica para reconhecer o que é e o que não é Druidismo de forma direta e clara segundo a minha vivência e de acordo com a vertente que eu pratico: a histórica. E ao ler minhas palavras a partir daqui, tenha em mente que tudo o que falo é baseado nessa vivência e na forma como o trilho o meu caminho com os Deuses. Se você pratica segundo outros preceitos, espero poder ajudar a enriquecer a sua prática falando da minha experiência.

O Druidismo é uma religião politeísta diretamente ligada à cultura celta, seus Deuses, suas histórias, suas lendas e seus valores. Sua prática remete-se a três pilares: os Deuses celtas (sim, apenas Eles), a Natureza e os antepassados, sejam eles de sangue, de fé ou todos os que já pisaram no solo em que estamos no momento.

Isso não te impede de ter uma excelente relação com Deuses de outros panteões ou conceitos que adicionarão à sua prática, mas essa relação se dá de forma paralela à vivência da fé em si. Afinal, poder você pode tudo, mas nem tudo o que você fizer poderá ser chamado de Druidismo, e nem deve até por respeito aos outros conhecimentos que adquira. Saber separar o que é a sua prática do que é a nossa fé é um exercício que trará uma melhor compreensão do que é cada uma das coisas que você estuda.

Como eu disse antes, existem muitos entendimentos do que seja o Druidismo. Converse com praticantes das mais diversas linhas, expanda seu círculo de conversas e mantenha a mente aberta por um lado e vigilante por outro. Não demorará a encontrar os charlatões e iludidos, mas ao mesmo tempo você encontrará pessoas com trabalhos seríssimos e com práticas maravilhosas, mas absurdamente diversas do que você tinha em mente no início (tenha sido ele há décadas ou a minutos) e nas quais você poderá reconhecer os Deuses em ação.

Conheça os Deuses

Essa é a parte mais simples, mas com escutei de um lama tibetano uma vez “o simples nem sempre é fácil”. Leia a respeito Deles, estude Suas histórias e lendas, mas procure sempre livros de qualidade, pois o que existe de livro ruim falando dos celtas é algo absurdo de impressionante! você pode acessar aqui a bibliografia indicada por esse site. Falaremos mais dos Deuses no próximo texto.

Honre seus antepassados

Em primeiro lugar, honrar não significa aplaudir de pé o que tenham feito. Olhe para os que vieram antes de você com a reverência que merecem e com o respeito que todos devem receber de ti, mas jamais esqueça-se do olhar crítico ao vê-los. Assim como você, eles foram humanos e erraram bastante, então eles não são apenas fontes de exemplos de sabedoria e virtude, mas um manancial de erros e acertos que podemos estudar, seja olhando para cada um em separado, seja analisando-os como um povo que viveu em outro tempo e sob uma outra realidade.

É importante reconhecê-los como um elo na longa cadeia de eventos que fez você estar aonde está e do jeito que é. É uma estrada imperfeita, que você hoje trilha com um grau maior ou menor de sucesso, mas é a sua estrada, e dos que vieram antes você precisa saber o seguinte:

  • Daqueles que partilham o vínculo de sangue contigo, você traz a genética e a sua constituição física, bem como muito do seu jeito de ser. A eles você deve reconhecimento por cada inspiração que hoje em dia nos faz pensar num jeito ou noutro de cumprir nosso papel no meio em que vivemos e pelos valores que temos, sejam eles inspirados pelos seus feitos ou aprendidos com suas falhas.
  • Àqueles que partilham o vínculo de fé contigo, sejam eles honrados ou charlatães, você deve repeito por terem fomentado, da forma correta ou errada que tenham conseguido, que cultura e a religião dos celtas conseguisse chegar aos dias de hoje e esteja ganhando cada vez mais substância graças à ciência que a pesquisa incansavelmente. Quanto ao que discorde apenas ajude a disseminar a informação o mais correta possível… e cure;
  • Aos que pisaram no solo que hoje te sustenta e nutre você deve por um lado a gratidão por cada gota de suor derramada e cada gesto que o beneficiou e por outro a atenção para não cometer os mesmos deslizes ou mesmo atrocidades de tantos outros o maltratam. É necessário compreendê-lo para cuidar desse chão que, no momento em que você lendo, pulsa com uma energia imensa e está em cada detalhe do que te cerca, desde o plástico até a natureza que se entremeiam à nossa volta.

Conecte-se com a natureza

Esse é o momento em que quase todos os druidistas que conheci até hoje para em pensam imediatamente em ir para uma cachoeira, uma praia, ou algum lugar onde possam desfrutar de lugares maravilhosos e receber energia da natureza. Isso é fantástico! Faça isso sempre que puder! Mas não é dessa parte feliz que falarei. Afinal, é um texto sobre a prática diária, e não sobre os momentos de relaxar. No dia-a-dia você precisa estar atento à natureza com a qual você interage, e principalmente para quem mora na cidade isso pode ser torturante, mas o fato é que não deveria sê-lo.

Ao escolher trilhar o caminho druídico você está, necessariamente e independente da vertente que ache interessante ou de vê-lo como religião ou filosofia de vida, decidindo participar da cura deste planeta, de forma muito mais pragmática do que idealista. Por isso, e assim como o médico que estuda como tratar uma ferida infectada para limpar os vermes que comem a carne de um animal ferido a fim de promover a cicatrização daquele ferimento, convido você a realmente olhar por onde anda e ponderar a respeito do que vê para, em descobrindo os ferimentos, saber encontrar ou mesmo desenvolver meios de ajudar nesse processo.

Existe concreto demais à sua volta? Concreto é feito com partes de natureza, torcidas pela humanidade a fim de criar algo diferente do que encontramos no mato, mas ali também existe natureza. Descubra meios de suavizá-lo. Você nunca tinha se dado conta de uma árvore fraca no caminho por onde vai pra casa? Estude como fortalecê-la. Notou animais abandonados na região? Pesquise o que pode fazer. Às vezes uma mera postagem numa rede social pode salvar aquela vida e quem sabe ainda completar uma família, por exemplo. Notou alguém destruindo a região? Denuncie e cobre das autoridades atitude.

Muitas vezes você poderá fazer algo a respeito e, outras vezes, não. Quando não conseguir só, procure auxílio de outras pessoas e organize-se para que, na medida das suas possibilidades, você faça parte dessa mudança e, quem sabe, descubra-se mais completo enquanto caminha pela sua vizinhança ou mesmo pelas ruas de uma cidade que visita e onde, já sem perceber, pegou um pedaço de papel no chão e o jogou no lixo.

Entenda a natureza que te cerca, seja ela “orgânica” ou não, como manifestações divinas, e procure tornar o máximo que puder uma expressão Deles, sem atritos ou intolerâncias, apenas cura. Essa prática nos faz compreender que somos parte de um todo que vibra em conjunto e de formas tão diversas que sequer conseguimos imaginar, quanto mais controlar ou compreender.

Juntando tudo isso na sua prática diária

Os ingredientes da sua prática estão aí, todos acima, agora é a hora de darmos uma “receita de bolo” para facilitar o seu primeiro passo. E ela não poderia ser mais simples: não há uma receita de bolo. Os ingredientes estão todos aí, mas para uni-los é necessário estudo, reflexão e, principalmente, respeito. O que posso fornecer são alguns exemplos para que você possa começar a descobrir o seu jeito pois, assim como cada família e cada pessoa são diferentes, a sua prática também será diferente da de todas as pessoas que venha a conhecer, seja por um detalhe aqui ou ali, seja por uma imensidão de coisas.

Mantenha sempre os três pilares do Druidismo na sua mente, e você está num bom caminho para começar. Aos poucos, e ao passo em que se aprofunde em seus estudos, você descobrirá que alguns ajustes serão necessários e, à medida em que você mude, sua prática também mudará, uma vez que ela nada mais é do que uma expressão de ti. Ela será tão viva quanto você permitir que seja, tão maravilhosa quanto quiser torná-la e mesmo tão ressentida cruel quanto a trate com desprezo. Assim como costumo dizer a respeito dos altares, pense na sua prática como um ser vivo.

E falando em altares, eles serão um ponto importantíssimo da sua vivência. Eu falo deles nesses textos.

Pequenos atos de grande simbolismo

Ao construir… não, ao descobrir o seu jeito de estar com os Deuses ao seu lado no caminho, procure estar plenamente consciente do que esteja fazendo a cada momento do seu dia. Você logo perceberá a dificuldade, para não dizer a impossibilidade disso no mundo em que hoje vivemos, mas contente-se com pequenos atos de grande simbolismo.

O jeito de servir a comida, por exemplo: ao servir seu prato ou caso sirva o prato de alguém, esteja consciente não apenas do preço que a comida custou ou de onde está o prato para que o alimento não caia no chão, mas no ato de alimentar-se e na importância de estar com os outros que partilham deste momento. Esteja consciente do propósito da refeição, do motivo pelo qual você precisa alimentar-se e de que esse será o combustível para continuar a sua jornada nesse chão. Independente de você ser vegetariano ou carnívoro, saiba que você no mínimo mutilou vidas ou privou que uma nova vida surgisse, no caso de ovos e frutas, para que você continue a existir.

Aprenda o valor disso e a ser grato por cada grão, e entenda esse ato como o que ele é: você está angariando mais tempo nesse mundo, então aproveite sua refeição da melhor forma que puder e, sempre que possível, afaste-se de qualquer distração que não sejam os sons ao seu redor e, quem sabe, as vozes e os olhares de quem partilha esse instante contigo.

Nesses momentos em que você percebe o que está à sua volta e compartilha momentos com quem ou o que te cerque, em cada um desses momentos, está a sua prática druídica.

Publicado por: Malhado | 25-12-2015

Feliz Verão!

“Se você deixar que o seu senso crítico seja substituído por uma ideologia, uma paixão, por uma fé ou mesmo por um objetivo que ache nobre, você se perderá de si mesmo enquanto faz o seu caminho”.

Alexandre Malhado

Uma ideia que flui da alma e escorrem pelos dedos em forma de palavras quando começo a escrever novamente depois de tanto tempo. Se tudo sair conforme planejado, a frase estará em contexto num futuro próximo. Um presente de Verão.

E, falando nisso, um feliz verão
ou qualquer que seja a sua
celebração nesta época!!!

Publicado por: Malhado | 21-05-2015

Nossos templos deveriam ser cemitérios

Parece uma proposição soturna, mas não deveria ser, e segundo minha opinião essa é a opção mais adequada às nossas necessidades. Não falarei aqui de nada que remeta ao gótico, a poemas lidos sobre tumbas nem a nada que o senso comum possa entender como nefasto. Falarei de bosques, de beleza, de família e de um contato com a natureza que está cada vez mais nas histórias e menos em nossas práticas. Falarei de resgate e de redescoberta, e de como podemos nos tornar aquilo que sequer imaginamos ser possível.

Se há uma coisa com a qual eu sonho para a nossa comunidade é que possamos ter nossa prática em paz e com a seriedade que ela merece, e tudo começou a parecer possível há algum tempo atrás, quando eu li algumas matérias sobre uma nova forma de funeral que achei muito interessante: uma urna onde você deposita as cinzas de um ente querido (humano ou não, existem urnas para pets) e coloca essa urna no solo, onde virará uma árvore da sua escolha. Isso aflorou em mim uma reflexão profunda sobre o como encaramos nossos ritos e como desprezamos certas coisas essenciais para fortalecer nossa identidade e nosso contato com o que acreditamos ser sagrado, e essa notícia tornou-se solução possível para uma área de ritos relegados: os fúnebres. Veio também de encontro há uma coisa que me incomoda muito: o fato de não termos templos e não nos organizarmos enquanto comunidades para tê-los.

É  entre árvores que somos felizes, mas um bosque demanda cuidado e, principalmente, terreno. A fim de sanar ambos os problemas essas urninhas serviram de ponto de partida para que eu pensasse em formas de viabilizar um bosque calcado na ancestralidade, plantado inicialmente com árvores de vida curta, de modo análogo ao como as bétulas atuam (mas infelizmente parece que não moramos em solo onde elas se adaptem) e aos poucos preenchendo as clareiras com árvores mais longevas, preocupando-nos sempre com a compatibilidade vegetal a fim de evitar que árvores não adaptadas ao terreno, à biodiversidade e ao clima causem algum um desequilíbrio ambiental em nome da árvore tal que achamos linda mas que acabaria com as chances de uma árvore nativa vingar, tornando-se predadora, como ocorreram com as jaqueiras na Floresta da Tijuca – RJ*.

Encampar essa ideia é algo complicado de se fazer, pois há muito estudo a fazer e muito a se pensar. É necessário pesquisar a lei a fim de viabilizar um cemitério nosso (em uma pesquisa rápida no Google achei uma legislação, para quem se interessar em conhecer), e há que se conseguir fazer com que nossa força política e/ou econômica seja suficiente para recebermos um terreno ou que o compremos. Existe ainda a eterna luta por definir o que é e o que não é, de fato, Druidismo ou Reconstrucionismo Celta e como essas práticas, conforme aceitas, mas em meios de usar o espaço de forma realmente respeitosa e como nossas práticas afetariam tanto quem agora esteja em forma de árvore, morando ali, quanto quem ali frequente. Somemos a isso questões que tocam conceitos além do mero ego, mas com as quais temos de lidar, e a necessidade de protegermos esse espaço tanto de bandidos comuns quanto dos vândalos da fé que se espalham por nossa nação como praga mais perigosa ainda do que as que a natureza tem e com as quais teríamos que lidar ao cuidar desse local e teremos os primeiros grandes desafios que teremos de lidar para que possamos fazer algo acontecer.

Apresentados os primeiros problemas, é preciso angariar forças para enfrentá-los, e a ideia de termos um lugar arborizado em cujo centro podemos ter um templo que conte, quem sabe, com escola e biblioteca para nossos estudos e nossas crianças, e que ainda por cima seja local de reunião onde possamos fomentar o estudo e prática de nossa cultura, é um sonho possível e factível. Um santuário onde grupos diferentes possam coexistir em paz, sob as bênçãos dos nossos antepassados, a proteção de nossos Deuses e o aconchego da natureza. um local onde possamos viver sem medo de sermos filhos dos Deuses e onde sacerdócio seja realmente uma função, e não uma tendência colocada em prática na raça e de acordo com a necessidade de nossos pequenos grupos. Um lugar onde todos nos sentiremos em tribo, mesmo que pertençamos a “famílias” diferentes de um pensamento que aponta na mesma direção.

Eu sonho com isso, e quis compartilhar esse sonho com você, na esperança de semear uma realidade futura.

 

* As jaqueiras começaram a matar as árvores nativas da Mata Atlântica da Floresta da Tijuca e tiveram de ser sacrificadas. Não sei se apenas uma parte delas ou todas.

Publicado por: Malhado | 28-10-2014

Uma bênção de aniversário e agradecimento

Neste novo ciclo que se inicia em sua vida, desejo-te uma chuva branda ao lado do teu caminho sempre que necessário, para que jamais lhe falte o alimento quando você estiver em necessidade, mas sem trazer o açoite do frio.

Peço para ti um solo seja firme e sólido, mas macio o suficiente para aplacar qualquer queda,
pois assim você as usará como aprendizado, e não como recordações de momentos paralisantes.

Lembro-te da importância de que teu sorriso seja largo e repleto do brilho da sabedoria e da gentileza,
para que você se torne inspiração, e quem o veja consiga perceber o brilho da tua alma.

Agradeço-te por ter feito chover quando tive fome,
Por ter sido o chão quando tive dúvidas,
E por lembra-me que eu também sei brilhar.

Alexandre Malhado

 Para Garnet & Marcos.
Feliz aniversário!

Publicado por: Malhado | 20-09-2014

O caldeirão da poesia

Em conversa com Mayra

 “Meu verdadeiro Caldeirão da Incubação,
ele foi tomado por Deus dos mistérios do abismo elemental,
uma decisão adequada que dignifica alguém a partir do seu centro,
que verte da boca uma correnteza terrível de palavras.

Sou Amhairghin Joelho-Branco,
pálido de substância, de cabelo cinzento,
concluindo minha incubação
em formas poéticas adequadas,
em cores diversas.

Deus não atribui a mesma porção a todos:
emborcado, virado de lado, com o lado certo para cima;
conhecimento nenhum, conhecimento pela metade, conhecimento completo.
Para Eber e Donn
a criação da poesia temível,
vastos, poderosos goles de encantamentos mortais
em voz ativa, no silêncio passivo, no equilíbrio neutro intermediário,
na construção apropriada da rima
desse modo narra o caminho e a função do meu caldeirão.

Canto o Caldeirão da Sabedoria
que concede o mérito de cada arte,
através do qual cresce o tesouro,
que engrandece cada artesão comum,
que constrói uma pessoa por meio do seu dom.

Onde está a raiz da poesia numa pessoa, no corpo ou na alma? Dizem que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Outros dizem que está no corpo, onde as artes são aprendidas, passadas através dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a sede do que permanece na raiz da poesia e o bom conhecimento na ancestralidade de cada pessoa não passa para todos, mas passa a cada outra pessoa.

Qual é então a raiz da poesia e de toda as outras formas de sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa, isto é, o Caldeirão da Incubação, o Caldeirão do Movimento e o Caldeirão da Sabedoria.

O Caldeirão da Incubação (Coire goiriath) nasce virado para cima numa pessoa desde o começo. Distribui sabedoria às pessoas na sua juventude.

O Caldeirão do Movimento (Coire érmai), no entanto, aumenta depois de virar. Isso significa que ele nasce virado de lado numa pessoa.

O Caldeirão da Sabedoria (Coire sois) nasce sobre seus lábios (virado para baixo) e distribui sabedoria em cada arte, além da (em acréscimo à) poesia.

O Caldeirão do Movimento, então, está sobre seus lábios em cada outra pessoa, isto é, nas pessoas ignorantes. Está obliquamente virado em pessoas do ofício bárdico e outras de pequeno talento poético. Está virado para cima nos maiores dentre os poetas, que são poderosas torrentes de sabedoria. Por causa disso, não em todo poeta mediano está ele voltado para cima, pois o Caldeirão do Movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria.

Pergunta: quantas são as divisões da tristeza que viram o caldeirão dos sábios? Não é difícil; quatro. Saudade, pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação a lugares sagrados. É internamente que estas nascem, embora a causa venha do exterior.

Existem então duas divisões da alegria que viram o Caldeirão da Sabedoria, isto é, a alegria divina e a alegria humana.

Na alegria humana, existem quatro divisões entre os sábios. Intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo do ofício bárdico; a alegria da sabedoria depois da criação harmoniosa dos poemas e a alegria do adequado frenesi poético da trituração das claras nozes das nove aveleiras na Fonte de Segais no reino dos Sídhe. Elas se lançam em grandes quantidades como um rebanho de carneiros no leito do Boyne, movendo-se contra a correnteza mais rápidas do que cavalos de corrida no meio do ano no dia esplêndido a cada sete anos.

Deus toca uma pessoa por meio de alegrias divinas e humanas, de modo que seja capazes de pronunciar poemas proféticos e conferir a sabedoria e realizar milagres, bem como oferecer um julgamento sábio e dar precedentes e sabedoria em resposta aos desejos de todos. Mas a fonte dessas alegrias (Deus) está fora da pessoa, embora a verdadeira causa da alegria seja interna.

Canto o Caldeirão do Movimento,
graça compreensível,
conhecimento reunido,
fluente inspiração poética como o leite do peito,
é o auge da maré do conhecimento,
união de sábios,
correnteza de soberania,
glória dos humildes,
maestria das palavras,
rápido entendimento,
sátira enrubescedora,
artesão de histórias,
cuidando dos alunos,
procurando princípios obrigatórios,
distinguindo as complexidades da linguagem,
movendo-se rumo à música,
propagação da boa sabedoria,
nobreza enriquecedora,
enobrecendo os não-nobres,
exaltando os nomes,
relatando louvores
por meio do trabalho da lei,
comparação de dignidades,
a bebida nobre em que é fervida
a raiz verdadeira de todo conhecimento,
que entrega em razão do respeito,
que cresce em razão da diligência,
cujo êxtase poético põe em movimento,
cuja alegria vira,
que é revelado por meio da tristeza,
proteção que não diminui,
canto o Caldeirão do Movimento.

O que é esse movimento? Não é difícil; uma virada artística ou uma revirada artística ou viagem artística, isto é, concede a boa sabedoria e a nobreza e a honra depois de virar.

O Caldeirão do Movimento
concede, é concedido,
aumenta, é aumentado,
alimenta, é alimentado,
engrandece, é engrandecido,
invoca, é invocado,
canta, é cantado,
preserva, é preservado,
combina, é combinado,
sustenta, é sustentado.

Boa é a nascente do ritmo,
boa é a morada da fala,
boa é a confluência do poder
que edifica a força.

É maior do que cada domínio,
é melhor do que cada herança,
traz o homem ao conhecimento
ousando além da ignorância.”

Publicado por: Malhado | 31-08-2014

Uma bênção de ancestralidade e de novos ciclos

“Tragam os Deuses as bênçãos e inspirações de todos os que um dia estiveram no solo em que hoje você se encontra,
daqueles cujas palavras, vivências e exemplos moldaram os valores e o caráter com os quais você exprime a sua voz,
e das pessoas cujo sangue foi vertido e temperado pelo suor e pelo tempo para que você possa receber estas palavras.

E que seu exemplo mostre a quem vier em seguida como trilhar o caminho no qual você hoje avança e deixa sua marca,
E que as lições de cada dia tornem-se a compreensão de que somos parte de um todo e da teia a qual chamamos vida,
E que seu sangue flua com a força, a honra e o brilho de tudo o que é sagrado, e com as bênçãos dos que são eternos”.

Alexandre Malhado

Publicado por: Malhado | 17-05-2014

Agora é, talvez, nunca mais

Há anos eu digo que o fundamentalismo um dia baterá à nossa porta e nos fará correr ou morrer pelos nossos Deuses. Há anos eu alerto sobre o avanço preocupante de uma turba ignorante, ávida por milagres e ansiosa pela salvação e pela prosperidade prometidas por mercenários da fé que os enganam sem sequer precisar disfarçar seus esquemas ou seu intento em transformar nosso país numa teocracia capaz de engendrar a nossa própria versão do holocausto, onde morrerão os filhos dos Deuses enquanto aplaudem as ovelhas insanas, de olhos injetados e corações corrompidos pelos valores distorcidos que professam e pelo ódio que cultivam em seus corações.

Há anos eu aponto, aqui e ali, os sinais dessa onda de ódio que ameaça não apenas nossa fé e nossas famílias, nem apenas o conceito sagrado da diversidade que está presente em todas as correntes de religiões da terra, mas o nosso próprio direito à vida. Há anos alguns poucos concordam comigo, metade por educação ou amizade, talvez, mas a maioria apenas leu e esqueceu. Quem sabe até porque imaginar uma realidade tão devastadora em nosso futuro seja algo difícil demais de se lidar?

Quem sabe… e sinceramente? Queria eu estar errado.

Hoje em dia temos fundamentalistas trabalhando ativamente no legislativo para criar leis a fim de nos tirar direitos, e se isso já não é horrível o bastante para que as pessoas acordem logo, cai o judiciário ante à crença do ódio, e o momento de fazermos algo, que antes era o “agora“, pode talvez até mesmo ser o “nunca mais“. Estamos olhando o mundo afiar as armas e mirar nossas gargantas enquanto ou nos digladiamos em nome de “títulos” e “verdades” ou nos sentamos calmamente esperando que outros travem nossas próprias lutas. Vivemos acorrentados pela indolência ou pela egolatria ao invés de trabalharmos ativamente ao menos pelos nossos direitos.

Agora talvez seja nunca mais, mas enquanto o sangue pulsar em nossas veias, o agora é sempre o momento de nos unirmos contra qualquer intolerância que tente justificar, a qualquer prazo, a nossa opressão. Paremos de perder tempo e deixemos de ficar marinando em nossos próprios umbigos comodismos para não sermos servidos como banquete de sacrifício a fim de atrair mais e mais consumidores para uma indústria da fé vazia, intolerante, e que não tem nada em comum com os ensinamentos do livro em que se diz basear, porque quando a faca deles estiver amolada, nem a rede, nem a poltrona, nem o manto nem o conhecimento servirão de escudo para o ódio que verterá nosso sangue no solo que dizemos considerar sagrado.

Publicado por: Malhado | 14-04-2014

E quando você estiver além das nove ondas?

“Qual será teu papel quando a este mundo abandonar para chegar a uma nova vida? Espera se sentar entre sábios quando neste mundo foi reconhecido como tolo? Espera receber reconhecimento quando neste mundo só semeou discórdia? Espera ser celebrado quando neste mundo passou a ser ignorado por sua própria arrogância? Espera ser elevado apenas porque neste mundo acreditou ser maior do que outros? Tolos e sábios vão ao seu destino na nova vida, eruditos e ignorantes serão parte das tribos divinas. Mas aquele que fecha seus olhos à Tribo neste mundo pode ter sua posição seriamente invertida quando além das nove ondas, e aquele que eleva demais a própria voz pode estar deixando de escutar aos avisos do Outro Mundo”…

Wallace Cunobelinos

Foi com essa reflexão que o Wallace fechou um fim-de-semana onde refleti bastante acerca disso. Não cabe a mim desenvolver o tema agora, mas propor que você o faça, e esperar que ele possa nos brindar com um texto a esse respeito em breve!

Uma boa semana, e espero que você passe um tempo pensando no que quer se tornar não apenas quando você estiver além das nove ondas, mas a partir de agora.

Que os Deuses nos abençoem a todos!

Publicado por: Malhado | 24-02-2014

Feliz Dia da Memória Pagã!

As religiões da terra são também chamadas de “pagãs” por motivos os mais diversos, e destes o mais antigo que consegui encontrar foi o de que os soldados romanos entitulavam-se “soldados de Cristo” e chamavam as pessoas que viviam o “pagus” – que pode ser traduzido como campo, aldeia, vilarejo – de pagãos e a distorção do termo teria começado daí para chegar à definição completamente absurda que hoje é difundida de que pagão significaria “não cristão”. Pessoalmente, nunca gostei do termo, mas fui dono da comunidade Paganismo no Orkut e usei esse nome justamente para ressignificá-lo, a fim de que as pessoas aprendessem a reconhecer que nossas correntes religiosas nada têm haver (ou pelo menos não deveriam ter haver) com nenhuma fé que não seja uma religiosidade da terra.

Hoje lembrei-me disso ao ler uma postagem da Mayra Ní Brighid falando desta data comemorativa que eu não conhecia. Data criada na Europa para honrar heróis, heroínas e mártires das religiões da terra que sofreram e sofrem até hoje com a violência e a discriminação mundo afora. O dia escolhido faz parte do nosso calendário, o que no início achei muito estranho, uma vez que a grande maioria das nossas religiosidades afina-se não com datas, mas com os ciclos sazonais. Aí eu li o porquê:

No dia 24 de fevereiro do ano 391 e.c. o imperador romano Teodósio I
determinou que todos os templos pagãos fossem fechados,
seus ritos considerados ilegais, assim como visitar os templos.
Começou aí a parte institucionalizada da saga
persecutória
contra as religiões não advindas de Abraão.
Neste caso em específico, tudo o que não fosse o Cristianismo.

Achei a escolha dessa data fantástica! Um resgate da data e uma forma de nos lembrar do dia, onde tudo começou e que deu início às tensões que culminariam na extinção do fogo da Deusa romana Vesta em 394 e.c. e na futura perseguição aos Druidas após a proibição do nosso culto, assim como na vandalização de templos pagãos que até hoje existe no mundo inteiro e, no Brasil, tem como principais encorajadores as igrejas que nada carinhosamente chamo de “nazi-pentecostais“.

Mas esta data não deve servir para aguçar nosso ódio contra fanáticos e intolerantes. Nossas mentes e corações devem voltar-se para as pessoas que fizeram e fazem com que a voz dos Deuses continue a ser escutada pelos ouvidos, mentes e corações dos que precisam conhecê-Los. Hoje é dia de honrarmos quem trabalhou, viveu e morreu em nome de qualquer fé tida como “pagã”, bem como de olharmos nos olhos uns dos outros e ponderar acerca de qual é o nosso trabalho e como nossa vida pode pulsar para que, no futuro, a voz Deles continue viva. Há muito mais formas de trabalharmos do que as pessoas costumam imaginar.

Hoje acenderei uma vela, e o farei todos os anos nessa data até que minha chama se apague. Uma vela simples e branca, para lembrar-me dos que já se foram, sejam eles cantados nas lendas ou esquecidos pela história, fossem eles baluartes de sabedoria ou embusteiros que foram utilizados pelos Deuses enquanto julgavam utilizar-se das pessoas para seus próprios fins.

Hoje acenderei uma vela e pedirei por cada um deles, mas mais que isso: pedirei para que em breve eu possa fechar meus olhos e imaginar que a chama da minha pequena vela forma um céu de estrelas com a chama de cada filho da terra que honra seus antepassados e heróis, angariando força para que possamos, juntos, vencer o ódio que ainda arde em muitos de nós e utilizar essa energia para construir um mundo mais justo, onde sejamos respeitados e nos façamos respeitar.

E, no futuro, espero fechar os olhos e sentir o calor da chama e a luz da sua vela juntar-se a essa constelação!

Espiral de velas

Feliz Dia da Memória Pagã!

Publicado por: Malhado | 06-02-2014

Enquanto

“Enquanto formos coniventes com a mediocridade
Enquanto aplaudirmos ou endossarmos o que não é ético
Enquanto nos agarrarmos ao ódio e à incompreensão
Enquanto calarmos por ser mais fácil ou cômodo
É quando escolheremos continuar vivendo de forma medíocre.

Repense as suas atitudes enquanto elas estiverem se tornando âncora para você ou chibata para quem esteja à sua volta, pois quando você deixar esse processo chegar ao fim, pode ter se perdido de si de forma irremediável.”

Alexandre Malhado

Doodle - jogos olimpicos de inverno e a carta olimpica

Clique para ampliar

Hoje vi esta imagem a abrir o Google, e esse tipo de atitude, seja vinda de uma mega empresa ou de quem nunca vimos ou jamais reencontraremos, nos mostra que a mudança está nas nossas atitudes.

Repense-se, enquanto é tempo.

Publicado por: Malhado | 31-01-2014

Ciclos

“Não há galho sem tronco,
Não há tronco sem raiz,
Não há raiz sem a semente,
Não há semente sem o fruto,
Não há fruto sem a árvore.

Nosso futuro depende das lições
que aprendermos com o passado”

Alexandre Malhado

FELIZ LUGHNASADH!!!

Publicado por: Malhado | 20-01-2014

Atitude

Fale aos outros do que ama,
Aprenda com suas cicatrizes,
Cure as dores que te fazem mal.

Alexandre Malhado

Publicado por: Malhado | 18-11-2013

Conversa com árvores

As pessoas esqueceram como conversar com as árvores, mas não porque não as escutem mais ou não se importem mais com elas. É pior, pois elas não conseguem mais enxergá-las, e isso não é apenas por tê-las cortado e plantado concreto ou asfalto em seu lugar. Quando olham para onde uma árvore está enxergam apenas madeira, folhas e talvez um mural onde podem carvar seus nomes com um canivete ou um local onde um pássaro chato fez seu ninho para incomodar os humanos.

É mais grave pelo fato delas hoje tentarem se afastar o máximo possível de si em busca de dinheiro, luxo status e modelos de beleza e comportamento sobre os quais não refletem de onde surgiram ou qual o seu verdadeiro propósito, e fazendo isso construíram muros que as afastam cada vez mais do que esteja à sua volta. Ao invés de cultivar-se, ceifam suas essências e constroem fortalezas de plástico e ilusões nas quais passam a habitar.

E é muito mais grave pois não percebem que aquilo que veem como castelos são na verdade jaulas que as aprisionam e as afastam ainda mais umas das outras. Desta forma, enquanto celebram estarem mais conectadas aos outros e mais informadas sobre o mundo, elas não compreendem que já não enxergam ou conhecem mais esse mundo e que na verdade estão enxergando as ilusões que o outro mostra e as ilusões que elas se tornaram, e lentamente sufocam e murcham, sucumbindo às ilusões que criam para não ter o trabalho de cultivar a própria alma.

Elas não se escutam mais pois esqueceram como conversar e nem se importam mais consigo, não sabem mais falar a língua do próprio coração e não entendem quem são ou o que poderiam tornar-se, e ao invés de serem belas árvores são agora mausoléus distorcidos de materiais tóxicos, fincados num deserto que sequer sabem que existe.
Não sabem mais conversar com as árvores, nem com o rio, nem com a rocha ou o vento pois estão preocupadas demais em escutar algo que não está nelas mesmas, mas fora, e estão espiritualmente cegas para o que o mundo realmente é.

Para o pequeno Artur que ainda
conversa com as árvores e que
existe dentro de cada um de nós!

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